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27.6.11

À deputada Myrian Rios

Falar daquilo que é lógico é muito difícil.

Não consigo conceber que ainda precisemos convencer qualquer ser humano de que democracia não tem nada a ver com se permitir discriminar negros, mulheres, protestantes etc.

Mas a gente vive no Brasil, um país em que homossexuais levam lâmpadas na cara em plena Avenida Paulista (por serem gays) e deputadas conservadoras assumem o discurso grosseiro mesmo já tendo posado para revistas masculinas.

O fato é que a deputada estadual Myrian Rios (PDT/RJ) acaba de entrar para o grupo das personalidades políticas desagradáveis por suas opiniões errôneas a respeito dos homossexuais, seus direitos e a real ideia de democracia.

Generalizar indivíduos como perigosos pelo simples fato de serem gays (ou negros, mulheres, nordestinos, religiosos etc.) é preconceito. E ponto! Não há do que duvidar. No caso brasileiro, as pessoas que teimam em usar do discurso democrático querem, na verdade, concessões e brechas para serem preconceituosas.

A deputada em questão disse com todas as letras que não votaria a favor de um projeto de lei em que ela perderia o "direito de demitir um funcionário da minha empresa ao descobrir que ele é homossexual". Ora, cara pálida! De onde surgiu essa vergonhosa coragem de proferir tais palavras? Uma possível resposta: da falta de leis que punam gente preconceituosa como a senhora.

Tenho algo a lhe dizer, deputada: eu votaria contra uma lei que proibisse atrizes mal-sucedidas de serem candidatas a cargos públicos. Tenho certeza de que outras pessoas (católicas como a senhora ou não) teriam mais condições de me representar como cidadão fluminense na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, mas opto pela democracia. Se for a vontade do povo que a senhora seja eleita, que assim seja!

Mas não abuse da suposta falta de informação daqueles que a elegeram. Não passe vergonha insinuando que homossexuais são pedófilos em potencial.

A deputada não sabe falar sobre democracia, mas argumenta como se fosse uma especialista; a deputada certamente já foi enganada por alguma pessoa, mas parece preferir que essa pessoa seja gay para que possa argumentar e fantasiar; a deputada faz parte daquilo que dá vergonha em ser brasileiro.

Excelentíssima deputada Myrian Rios: torço muito para que a senhora não quebre a cara sentindo na pele o que é ser discriminada e tratada como "coisa" por qualquer motivo que seja. O Jesus que a senhora diz representar certamente não aprova qualquer tipo de intolerância, mas também sabe perdoar. Sendo assim, em respeito aos milhões de cidadãos que a senhora representa (a mim inclusive), saiba reconhecer seu grave erro e peça as desculpas que merecemos.

Não é preciso ser homossexual para estar ofendido com tudo o que foi dito, deputada. É preciso apenas ter bom senso e um bom coração.

16.10.10

Deus não é eleitor brasileiro

O Serra, você sabe: é o Homem sem Nenhum Caráter. E ele prova isso a cada dia da campanha eleitoral.

Depois de me fazer acreditar ter sido indiretamente o responsável por jogar na internet e-mails questionando a fé da candidata Dilma e sobretudo acusando-a de ser a favor do aborto, ele fez mais. Muito mais.

Primeiro, se calou no debate da Band para em seguida negar que sua mulher Mônica Serra tivesse andado pelas ruas de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, dizendo que Dilma é a favor de matar criancinhas. Ele mente e a prova está aqui.

Depois, sabendo que os votos dos conservadores e religiosos em Marina o levaram ao segundo turno ele aparece na TV falando em um Brasil que "está nascendo" e leva ao ar comerciais que mostram um parto. Mais sujo impossível? Não.

Serra nunca escondeu que sempre quis ser presidente. O que ele tem deixado claro é paga qualquer preço para isso e a prova é a entrevista de Sheila Ribeiro ao jornal Correio do Brasil. Ex-aluna de Mônica Serra, ela afirma que em uma de suas aulas a professora disse ter feito um aborto aos quatro meses. Leia a reportagem aqui.

O Serra é, definitivamente, o Homem sem Nenhum Caráter.

Agora, mais do que gastar as linhas desse blog com acusações e comparações entre a competência e honestidade de Serra e Dilma, uma reflexão mais do que necessária.

Deus pode ser brasileiro, mas tenho certeza de que seu título de eleitor não possa ser daqui. Não considero pertinente que nossos órgãos de imprensa e a sociedade como um todo aceitem que esses temas sejam tratados dessa forma numa campanha presidencial.

Existem questões importantes a serem colocadas. Uma delas é a de que o Presidente da República não governa sozinho. O fato de Dilma ou Serra garantirem que não irão propor a legalização do aborto não significa que a lei não irá existir. A Lei da Ficha Limpa serve de exemplo: iniciativa popular, ganhou a internet e foi aprovada por nossos deputados e senadores.

Além disso, acredito que tenhamos que deixar claro que fazer política é também fazer concessões. A minha ou a sua vontade não pode ser imposta a dos outros. Vivemos em uma democracia, não? Se Dilma, Serra, Marina ou qualquer outro candidato se mostra contra ou a favor do aborto cabe a nós, eleitores, avaliar propostas que envolvam outros assuntos. E sem pedir ajuda de Deus.