31.10.11

SÉRIE - Futebol para todos: muito além do grito de gol

2) Os contratos de transmissão no Brasil

Em 2011 os clubes brasileiros de futebol da Série A firmaram novo contrato de transmissão dos jogos do Campeonato  Brasileiro com a TV Globo (leia-se: Globo, SporTV e Premiere Futebol Clube, o pague-para-ver) que vale para os anos de 2012 a 2014. 

O contrato atual não corresponde às orientações e determinações do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) do ano passado e, por isso, a assinatura estipulada para esse ano gerou expectativas, já que as emissoras interessadas (Record e Rede TV!, por exemplo) sentiram-se, enfim, protegidas e seguras para negociarem. 

Um compromisso firmado entre o Cade, o Clube dos 13 (até então o representante dos clubes) e a própria Globo pôs fim à cláusula de preferência. Com ela a Globo mantinha o poder de oferecer os valores pela transmissão por último, o que sempre impedia a concorrência das demais emissoras e feria "a igualdade entre os concorrentes", conforme comunicado que você pode ver aqui.

Uma briga política nos bastidores do Clube dos 13 (C13) e da CBF (a Confederação Brasileira de Futebol) foi constantemente comentada e noticiada por jornalistas e blogueiros, indicando que nem sempre o interesse financeiro dos clubes esteve em primeiro lugar. Alguns dirigentes garantiam apoio total ao já isolado Fábio Koff (presidente do C13) enquanto a maioria já havia assinado com a Globo. 

O acordo capitaneado pelo CADE representava maior liberdade e garantia econômica aos clubes, embora a imensa maioria estivessem/estejam presos a empréstimos feitos junto ao C13 e a antecipações de valores solicitados junto à Globo. Além disso, mesmo extremamente atrasado, o acordo finalmente deixava a disputa pelos direitos de transmissão mais justa. O blog do Juca Kfouri publicou a carta-convite recebida pelo SBT para participar do processo de escolha e nela, surgiram importantes novidades. Veja a carta neste post.

Uma das novidades era a preferência pela venda segmentada às diferentes mídias. Acreditava-se que fazendo leilões para diversos interessados os clubes arrecadariam mais.

Outro ponto, o mais importante, era que somente para a televisão aberta o C13 exigia R$500.000.000,00 por temporada (total de R$1,5 bi pelo triênio), valor já superior ao que a Globo havia pago pelo "pacotão" (TV aberta e fechada, pague-para-ver, Internet e telefonia móvel) das temporadas de 2009 a 2011: R$1,4 bi, segundo comunicado da própria emissora disponível aqui.

Por fim, a Record estava empenhada não apenas em pagar caro, mas também em usar o futebol para competir fortemente com a Globo: as transmissões dos jogos iriam para o horário nobre, batendo de frente com o Jornal Nacional e novela das nove.

Todo o esforço do C13 foi por água abaixo, pois a Globo optou por negociar diretamente com os clubes, o que foi inicialmente vantajoso para os grandes, mas parece alterar pouco a relação de dependência com a emissora dos Marinho. Segundo informações de Paulo Vinícius Coelho, o PVC, em seu blog no sítio da ESPN Brasil, os valores negociados clube a clube possibilitaram aumentos pontuais, mas que dificilmente cobririam o contrato do C13.

Os supostos valores são, segundo apuração da Folha de S. Paulo, de 43 para 100 milhões de reais para o Flamengo e de 21 para 55 milhões de reais para o Botafogo. Os dez maiores (supostos) contratos podem ser vistos nesse gráfico.

Todo a disputa, que teve a Rede TV! como única emissora a enviar proposta ao C13 após desistência da Record, foi até o mês de maio quando, enfim, a Globo já havia garantido novamente a compra do "pacotão".

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blog Pra Escrever apresenta uma série de postagens sobre as negociatas e politicagens do futebol brasileiro, reunindo publicações e críticas recentes da imprensa.

1) O jogo em que Ricardo Teixeira é o capitão.
2) Os contratos de transmissão no Brasil.
3) A história se repete. Chegou a hora de aprender com os hermanos.   

26.10.11

SÉRIE - Futebol para todos: muito além do grito de gol

1) O jogo em que Ricardo Teixeira é o capitão

Ricardo Teixeira concentra muito poder no futebol brasileiro, além de ser bastante próximo de nomes como o brasileiro João Havelange (presidente da FIFA de 1974 até 1998) e do suíço Joseph Blatter (sucessor de Havelange, com mandato até 2015).

Presidente da CBF há 22 anos, Ricardo Teixeira tem mandato até 2014 (ano da Copa no Brasil) e planos de presidir a FIFA a partir de 2015. Além disso, acumula o cargo de presidente do Comitê Organizador da Copa no Brasil (em que sua filha é a diretora-executiva). É ele que tem decidido junto das autoridades brasileiras o destino de bilhões de reais na construção dos estádios, por exemplo.

Embora tenha garantido em texto publicado na Folha de S. Paulo que a Copa no país do futebol seria bancada quase que integralmente pela inciativa privada, não há como negar a importância dos investimentos de governos municipais, estaduais e, principalmente, do governo federal. Há números que falam em mais de 98% da conta paga pelo dinheiro do contribuinte - o nosso.

A relação entre público e privado, como se vê, é bastante complexa na cabeça de Teixeira. Na bela reportagem da revista Piauí publicada em julho e assinada por Daniela Pinheiro (leia aqui), ele esbraveja: "Que porra as pessoas têm a ver com as contas da CBF? Que porra eles têm a ver com a contabilidade do Bradesco ou do HSBC? Isso tudo é entidade pri-va-da. Não tem dinheiro público, não tem isenção fiscal. Por que merda todo mundo enche o saco?".

Grande leviandade! A FIFA, para garantir seu lucro (estimado em 4,6 bilhões de dólares por mundial) e o de seus parceiros faz as mais variadas imposições. Entre elas, a isenção fiscal para todas as atividades que envolvam a Copa de 2014. A lógica é simples: para ser investigada, a Copa, a FIFA e a CBF são entidades privadas; para receberem dinheiro público são parceiras do governo brasileiro.

Mesmo que não falemos em uso de dinheiro público (o que não é o caso da CBF e da Copa, que se confundem na pessoa de Ricardo Teixeira), as empresas têm regras e leis a respeitar e detalhes a fornecer a diversos órgãos.

Ainda à revista Piauí, Teixeira deixou claro que o poder que ele concentra justifica qualquer arbitrariedade e retaliação. Diversos jornalistas e publicações são seus inimigos, seja abertamente declarado ou através das dezenas de processos abertos por ele (só contra Juca Kfouri já foram cinquenta): "É tudo coisa da mesma patota, UOL, Folha, Lance, ESPN, que fica repetindo as mesmas merdas". "Merdas" foi a palavra escolhida para resumir as denúncias de corrupção e enriquecimento ilícito.

Toda essa indiferença se completa com uma segurança inabalável: "só vou ficar preocupado, meu amor, quando sair no Jornal Nacional". Nesse ponto Ricardo Teixeira parece ter um pouco de razão. O maior grupo de comunicação do país costuma ser mais fiel aos seus interesses comerciais, como garantir as transmissões dos jogos do Campeonato Brasileiro e da Seleção, do que aos assuntos que correm o mundo. A TV Globo preferiu blindar o presidente da CBF em rara entrevista durante o processo eleitoral da FIFA, enquanto toda a imprensa esportiva mundial repercutia denúncias sobre pedido de propina em troca de apoio à candidatura da Inglaterra para a Copa de 2018.

Não são poucas as histórias de bastidores que vêm a público sobre demonstrações de força, ora por parte da Globo, ora por parte de Ricardo Teixeira. A mais emblemática, entretanto, é de 2001, quando o Congresso brasileiro fazia a CPI da Nike. Em um Globo Repórter (veja abaixo, em quatro partes), a emissora questionou o patrimônio de dirigentes, entre eles Teixeira, em comparação a seus rendimentos. A resposta foi rápida: o clássico Brasil x Argentina foi repentinamente remarcado para as 19h45. "Pegava duas novelas e o Jornal Nacional. Você sabe o que é isso?", revelou o nome forte do futebol brasileiro na mesma entrevista à Piauí.

A inevitável pergunta é: os rumos do esporte mais praticado e assistido do Brasil está nas mãos da pessoa certa? Ao que tudo indica, não. Ricardo Teixeira usa a CBF para demonstrar e ampliar sua influência, sem medo, e com constantes ameaças.

Fora das quatro linhas - para não dizer que também dentro delas - o que menos importa é o futebol. O capitão Ricardo Teixeira quer mesmo é levantar a taça de poderoso. 







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1) O jogo em que Ricardo Teixeira é o capitão.
2) Os contratos de transmissão no Brasil.
3) A história se repete. Chegou a hora de aprender com os hermanos.






      

24.10.11

Futebol para todos: muito além do grito de gol

Em tempos de preparação para a Copa do Mundo de 2014 e denúncias sem provas sobre o titular do Ministério dos Esportes, Orlando Silva, este blog prepara uma série de postagens sobre algumas questões que envolvem o esporte considerado paixão nacional, mais precisamente sobre suas politicagens e interesses.

Até que ponto as negociações das quais participam os cartolas são interesse privado?

Que poder a mídia brasileira exerce nos bastidores do futebol? E, principalmente: há motivos para pensar o futebol apenas dentro das quatro linhas?

Ainda que o Brasil seja realmente o país do futebol, o que podemos aprender com os demais?

Há diversas considerações a serem feitas antes que essas perguntas sejam respondidas.

Ricardo Teixeira preside a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, há 22 anos e parece fazer escola entre os clubes brasileiros. Dirigentes mantém-se no poder por sucessivos mandatos (quando há eleições) e permitem que até mesmo os torcedores mais desinteressados questionem se os interesses dos clubes está em primeiro lugar.

No país que vai receber os dois maiores eventos esportivos do planeta em três anos e que cresce economicamente distribuindo renda há pelo menos seis, os investimentos no esporte são inevitáveis. Quem cuida desse dinheiro?

A série reúne diversas informações sobre acontecimentos recentes e análises sobre esses temas que falam mais sobre politicagem e interesses duvidosos do que sobre paixão pelo clube ou esporte.

Aqui no Pra Escrever, a partir dessa semana!


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1) O jogo em que Ricardo Teixeira é o capitão.
2) Os contratos de transmissão no Brasil.
3) A história se repete. Chegou a hora de aprender com os hermanos.

19.10.11

#ClássicosEmSJ - Futebol e politicagem

Por melhor estruturada que seja e por mais audiência que tenha, a mídia esportiva brasileira gera mais conteúdo sobre politicagem do que sobre os esportes em si, especialmente o futebol.

Segundo esta matéria de O Dia que acabei de ler no NetVasco, o histórico estádio de São Januário continuará sendo preterido pelas forças de segurança pública do estado do Rio de Janeiro para a realização de  clássicos regionais, como o jogo contra o Botafogo pelo Campeonato Brasileiro que acontece daqui há quatro rodadas.

O Vasco, embora seja o único clube grande do Rio com estádio próprio é o que menos joga em casa. Eu, vascaíno, tenho o demérito de ter estádio. Os confrontos contra Botafogo, Flamengo e Fluminense, ainda que com mando de campo cruzmaltino, são obrigatoriamente realizados em estádios maiores e (supostamente) mais estruturados para um clássico.

São Januário tem capacidade para 19 mil presentes. A Vila Belmiro, estádio do Santos, tem capacidade para 15 mil e recebe clássicos contra o Corinthians e Palmeiras, por exemplo. Falta consenso entre as autoridades. 

A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, através do batalhão GEPE (Grupamento Especial de Policiamento nos Estádios), é quem desautoriza jogos no estádio do Vasco com a explicação de que São Januário não oferece segurança. Dúvida: se a PM é quem tem que garantir a segurança dos torcedores, não cabe ao Vasco a responsabilidade de provar que é possível. E mais: a realização de jogos no Engenhão ou no Maracanã não impediram a marcação de brigas entre torcidas em lugares distantes de onde o jogo seria realizado.

A entrevista do tenente-coronel Fiorentini é confusa. Ele tem pareceres relativos:

O acesso é complicado, a capacidade é pequena, e, se posso colocar um jogo com mais segurança no Engenhão, por que levá-lo para São Januário?

Honestamente não considero o acesso ao Engenhão mais fácil, tampouco seguro. Embora exista a estação de trem muito próximo ao estádio, não existem locais devidamente seguros para que as torcidas rivais possam se localizar sem encontrar-se. Além disso, mesmo sendo "contra-mão" São Januário e o seu entorno já fazem parte do cotidiano dos vascaínos que frequentam o estádio.

Outro argumento utilizado pelo tenente-coronel e que me reservo no direito de achar equivocado:

Um dos principais obstáculos é que no primeiro turno, quando o mando foi do Botafogo, o Vasco ficou com a metade da renda. Se o jogo fosse para São Januário, o Botafogo seria prejudicado porque só pode ter 10% de torcedores no estádio.

O (apenas) responsável pela segurança dos torcedores fazendo papel de cartola? O que este senhor tem de propriedade ou responsabilidade para falar sobre divisão de renda? Nada. E mais: que fique claro que a divisão igualitária da renda do jogo Botafogo x Vasco foi vantajosa para o time mandante, que tinha monstruosa inferioridade de torcedores em relação ao lado vascaíno, além de ser lógica e tradicional entre os clubes do Rio.

Por fim, ao comparar o caso da Vila e de São Januário, o responsável pelo GEPE fala que os jogos em Santos são autorizados por "questão de cultura". Ora, meu caro! Você não sabe que São Januário é um  dos estádios mais antigo desta cidade? Manter a "cultura" do santista jogar em casa, pode; a do vascaíno, não.

A autoridade do tenente-coronel Fiorentini é incontestável, mas quem gosta de futebol ou é vascaíno exige mais transparência e coerência em decisões como essa.

O Vasco, atualmente, é vice-líder do Brasileirão com a mesma pontuação do Corinthians, primeiro colocado. Temos chances reais de sermos campeões, assim como o Botafogo. Isso é suficiente para fazermos justa a realização, de fato, de um campeonato de ida e volta. 

#ClássicosEmSãoJanuário
#ClássicosEmSJ 

Em tempo: este simplório blog está preparando, para muito em breve, uma série de postagens em que vamos pensar e discutir o futebol brasileiro em um dos seus temas mais polêmicos: a transmissões dos jogos pela televisão. Mais politicagem, impossível. 
  

16.10.11

O futuro equivocado por dentro do "New York Times"


Este blogueiro que vos escreve gosta muito de cinema, embora entenda pouco (ou quase nada). Em tempos de Festival do Rio, montei uma lista de filmes que me interessavam sem atentar para diretores ou elenco, ficando focado apenas pela sinopse divulgada.

Dessa forma, escolhi com certo entusiasmo o filme "Primeira página: por dentro do New York Times", do diretor Andrew Rossi. O trabalho começa evidenciando os problemas que a publicação vem enfrentando nos últimos anos, sobretudo com perdas significativas em publicidade (valores pelo menos 30% menores de um ano para outro) e o crescimento das novas mídias e daquelas consideradas não-tradicionais.

Entretanto, o que se vê por dentro da redação do mais importante jornal dos Estados Unidos são demonstrações desnecessárias de poder e de ego de um outro diretor (inclusive em encontros promovidos para discutir o futuro do jornalismo em tempos de Internet) e demissões promovidas pela direção da publicação, justificada por questões financeiras - "Uma ação do Times custa menos do que uma edição de domingo", diz um dos entrevistados.

O filme nada mais é do que uma tentativa de fazer os espectadores acreditarem que mesmo em um novo mundo (em que a Internet e as técnicas de comunicação são fundamentais) a influência do jornal permanecerá. Há controvérsias.

A questão que talvez nem todos percebam (principalmente os ainda entusiastas desse jeito tradicional de produzir notícias, inclusive jornalistas) é que a própria fita dá os sinais das mudanças que vivem o jornal: mostra que, em 2001, ao publicar matérias sobre os armamentos nucleares no Iraque isso significou verdade absoluta na opinião pública estadunidense. O contraponto: sete anos depois, enquanto uma rede televisiva afirmava que a ocupação dos EUA no Afeganistão havia chegado ao fim, a redação do Times se encontrava perdida sobre como tratar um assunto que eles não dominavam.

Uma dos momentos finais do filme é um dos piores: "a notícia não vai morrer", diz um dos participantes do documentário ao garantir o futuro do The New York Times. A notícia vai continuar existindo, sim - com ou sem grandes jornais. Aliás, penso eu, quanto menos concentrada for a produção de notícia - leia-se: sem grandes corporações da informação - mais diversificadas serão as notícias que teremos sobre o mundo.

Já escrevemos (e pode ser lido aqui) que quanto menos dependermos dos grandes jornais e agências de informação, mais protagonistas existirão para que a notícia, uma interpretação dos fatos, possam surgir.

Quando morrem ou agonizam os grandes órgãos da imprensa mundial, a notícia vive.      

15.10.11

Questões locais, globais e sobre a Copa. E a soberania nacional?


Vivemos em um mundo globalizado (ou mundializado, como preferem os franceses).

Na visão fantasiosa que os poderosos querem impor, as tecnologias apresentam oportunidades, um mundo mais integrado e com distâncias espaciais e temporais reduzidas.

Um dos símbolos desse mundo globalizado são as empresas transnacionais, poderosas em várias áreas de atuação: do entretenimento ao mercado financeiro; da indústria alimentícia à automobilística. Consumir produtos dessas marcas, para muitos, é associar-se a elas e incluir-se na tal globalização.

A atuação imperialista e tirânica dessas corporações causa inevitáveis problemas por onde elas passam: desemprego, desrespeito aos direitos trabalhistas e ao meio ambiente, perda da identidade etc. Tudo isso justificado pelo lucro e pelas supostas "oportunidades de ouro" que as empresas oferecem aos estados nacionais, uma vez que recusar ou dificultar a atuação das empresas causa sua fuga. Há outros espaços em que elas podem se instalar sem que seja incomodada.

Outra característica da globalização é a homogeneidade imposta aos nossos costumes e consumo. Muitas vezes sem perceber, acordamos pela manhã e usamos produtos de higiene da estadunidense P&G, fazemos as refeições usando a suíça Nestlé, vestimos e calçamos a alemã Adidas, nos divertimos na noite bebendo cervejas da belga-brasileira InBev e ouvindo músicas do catálogo japonês da Sony. Por mais diversificado e cheio de opções que possa parecer, muito de nossas vidas é controlado por poucas corporações.

O processo com essas características se dá há décadas, mas começa a ganhar outras formas. Resistências têm explodido em todo o planeta há algum tempo. Um poder cada vez menos do Estado e cada vez maior das transnacionais é motivo de revolta, seja na América Latina ou na Europa - as desigualdades e injustiças nos unem, na medida do possível.

A FIFA, uma das mais influentes transnacionais conforme disse Juca Kfouri em artigo para a revista Interesse Nacional que está em seu blog e pode ser lido aqui, não age de maneira diferente. Usando e abusando da emoção que o futebol causa em todo o planeta (o marketing é ferramenta de ouro para qualquer corporação de grande porte no mundo) a entidade máxima do esporte impõe aos países-sede de seus eventos contratos, legislações e estilos de consumo. É o padrão-FIFA, caríssimo.

Para a Copa de 2006, na Alemanha, a força da Anheuser-Busch legitimada pelo contrato milionário com a FIFA não foi suficiente para impor que alemães e turistas consumissem no país da cerveja (a até então estadunidense) Budweiser. Por menos importantes que fossem nas grandes negociações globais, essas marcas locais conseguiram estabelecer-se com força e isso significa muito mais do que ter uma marca ou outra.

A força das ruas e do bom-senso mostra que por mais globalizado que esteja o mundo, ainda existe espaço para relações econômicas e de poder mais justas. Infelizmente, esse não é um caminho que estamos trilhando por aqui com relação à mesma FIFA.

Para a Copa de 2014 teríamos que deixar de lado legislações sobre meia-entrada para estudantes e idosos e sobre a proibição da venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios. Ainda que não faça sentido pelo clima que temos, os estádios brasileiros terão que ser cobertos (o que significa milhões de reais a mais nos orçamentos).

A soberania de um país cada vez mais importante no cenário internacional fica em xeque pelos desmandos dos senhores Teixeira e Blatter, sempre presentes nos noticiários internacionais por suspeitas e provas de sujeiras das mais diversas.

Esse tipo de análise não aparece na grande mídia brasileira, talvez pouco preocupada com a soberania do nosso país. Mais do que ficarmos orgulhosos por termos um evento desse porte em solo brasileiro, precisamos avaliar o que isso significa e qual preço pagamos.          

28.9.11

Na Copa, quem se interessa por uma imprensa livre?


O blog do Paulo Henrique Amorim, Conversa Afiada, trouxe uma boa notícia agora há pouco: "Dilma barra Teixeira em reunião com a FIFA". Essa é mais uma prova que desmonta a tese de presidente-ilha que o PiG* quer associar à Presidenta Dilma Rousseff. Este e muitos outros blogs já sabem que a Presidenta não é um fantoche ou um poste - como o presidente do IBOPE a classificou às vésperas da campanha eleitoral de 2010. 

Só aqui no Brasil o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, é respeitado. Em qualquer lugar do mundo onde a imprensa é verdadeiramente livre (sem rabo preso), ela atua fazendo investigações, indagando e buscando a verdade sobre o enriquecimento do "dono do futebol brasileiro", suas politicagens na FIFA e desmandos na Confederação Brasileira de Futebol. 

Por aqui, a maior emissora de televisão do país já é conhecida por noticiar investigações e fazer denúncias sobre atitudes de Ricardo Teixeira ou escondê-las quando lhe convém.  

A Copa 
Tem sido cada vez mais frequentes as tentativas de convencer a população brasileira de que a Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014 será vergonha nacional. Nada vai funcionar: não teremos estádios, os aeroportos entrarão em colapso,  seleções ficarão presas no trânsito das grandes cidades... Vai faltar bola e apito, como diz Paulo Henrique Amorim. 


As tentativas de instabilidade nas discussões sobre a Copa são muito comuns no meio futebolístico: "plantar" crises em um time e divulgar desentendimentos fazem parte das estratégias para os times adversários vencerem os favoritos.

Que lugar o PiG ocupa: o do favorito ou de quem planta crises?

*O PiG (Partido da imprensa Golpista) é a denominação para toda a grande mídia brasileira, mais preocupada com o poder do que com a informação. A sigla foi criada e difundida pelo Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada.

24.9.11

Cultura e tecnologia

O protagonismo que a tecnologia possibilita aos produtores de cultura em todo o mundo modifica o mundo em vivemos, em uma velocidade cada vez maior. Tempo e espaço têm novas relações graças aos desenvolvimentos tecnológico. 

Saímos do estágio em que o fazer sucesso dependia de aparições em programas de TV populares para outra visão do que é sucesso. Ainda engatinhando, o surgimento de artistas via mídias alternativas já é realidade. 

Hoje, sabemos, o consumo de música mudou completamente. Clássicos ou lançamentos estão no You Tube e cada um pode montar o set list que quiser, a qualquer momento. Esperar o final de tarde para ouvir sua música preferida na lista das mais tocadas é coisa do passado.   

Se o consumo de música (e cultura em geral) mudou com o uso e apropriação das novas tecnologias, a mudança no mercado é inevitável. Conforme Ronaldo Lemos disse no seu "Mod MTV", já não dá mais para desprezar os milhões de pages views que alguns clipes/artistas têm nas páginas de vídeos.

A estrutura mercadológica baseada nos grandes investimentos com enormes retornos de bilheteria e vendas graças ao consumo de massa continuará existindo, com transformações inevitáveis. Entretanto, as grandes corporações do cinema, da música e da informação precisarão coexistir com esse jeito novo de produzir e consumir cultura.

E o Brasil? 
Existem vários aspectos a serem destacados nessa onda de novidades e o aumento da chamada classe média no Brasil e a chegada ao mercado de consumo de milhões de famílias é um deles. As empresas de tecnologia e telecomunicações sabem que precisam se adaptar aos novos tempos. Ou perdem mercado.

Hoje a produção da notícia tende à descentralização. Partindo do ponto de que a notícia é a interpretação do fato, como diz Milton Santos, podem coexistir diversas notícias sobre um mesmo fato. O pensamento único, padronizado e repetitivo é desconstruído justamente por aquilo que o sustentou: as tecnologias. Sozinhas nada produzem, mas bem distribuídas promovem mudanças profundas.

O papel de Gilberto Gil como ministro da Cultura nos mandatos do Presidente Lula foi determinante, já que trouxe para a instituição (com certo pioneirismo global) esse novo olhar sob o produzir e consumir cultura. Os ativistas culturais temem que todos os avanços alcançados até agora possam se perder com o caminho escolhido para o ministério pela Presidenta Dilma, fato que merece total atenção da sociedade civil e dos agentes mobilizadores da grande rede.

Sem voltar atrás
Talvez ainda seja cedo para compreendermos onde iremos chegar com todas essas transformações, embora pareça claro que retrocessos são inviáveis. O caminho foi traçado e a tendência é de mais ganhos coletivos nos âmbitos da cultura e justiça social.

Ao propiciar o protagonismo, todas essas transformações (que partem de vários lugares, intensões e iniciativas) legitimam a liberdade

Segue abaixo o excelente programa "Mod MTV" com o tema periferias. 

22.9.11

O crime compensa pelo atingido? Para a Veja, sim.

O ex-ministro José Dirceu teve seu mandato de deputado federal e parte de seus direitos políticos cassados em função do mensalão, que ainda está por provar-se (como diz Mino Carta a Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada).

Esse ingrediente foi o bastante para aqueles que mandam na redação de Veja terem autorizado e, depois, justificado os métodos utilizados para realizar a reportagem de capa da edição em que Dirceu foi classificado como "o poderoso chefão" do governo.


Segundo apuração feita pelo repórter Gustavo Ribeiro, Zé tem tanto poder e influência no governo Dilma Rousseff que recebia em seu apartamento no Nahoum Hotel, em Brasília, atuais ministros, por exemplo. Na  reportagem completa publicada há cerca de um mês, Veja diz provar a denúncia com imagens do circuito interno de TV hotel.



O texto, claro, não considera que mesmo tendo sido cassado, José Dirceu continua sendo um cidadão com o direito de receber e conversar com amigos e articular politicamente, já que faz parte da direção do Partido dos Trabalhadores, uma vez que a decisão sobre o mensalão ainda não foi dada pela Justiça brasileira.


Os fins justificam os meios?


Até aqui, essa seria apenas mais um caso de mau-jornalismo praticado pela revista Veja. Porém, há detalhes que não foram publicados ou discutidos com a opinião pública com devida importância.


O repórter Gustavo Ribeiro hospedou-se no mesmo andar do hotel em que José Dirceu tem uma suíte alugada há meses. Para invadir o quarto do investigado tentou ludibriar a camareira que fazia seu serviço pelo corredor, dizendo que havia perdido sua chave e solicitando que a porta do seu quarto (na verdade quarto de José Dirceu)  fosse aberta. A funcionária, atenta e coerente, negou o pedido e comunicou o pedido à gerência do Nahoum. O repórter e o fotógrafo, que tentaram enganar os funcionários do hotel como crianças querem enganar seus pais, fugiram sem fechar a conta do quarto (detalhe: conta aberta com nomes falsos).


A polícia foi acionada, um boletim de ocorrência foi aberto pelo hotel e conclusões da investigação foram divulgadas por José Dirceu em seu blog:


"Foi concluída a investigação policial sobre a tentativa de invasão do apartamento que ocupo no Nahoum Hotel, em Brasília, ao final de agosto, pelo repórter Gustavo Ribeiro, da revista Veja. O jornalista prestou depoimento acompanhado de três advogados e admitiu que, de fato, tentou violar o recinto. A apuração policial também constatou que as imagens do circuito interno do hotel apresentam divergências com as publicadas na matéria de Veja. Os horários supostamente apurados pela revista simplesmente não batem com os registrados pelo hotel. A investigação – que colheu vários depoimentos e também se apoiou em imagens do circuito interno - será encaminhada ao Juizado Especial Criminal de Brasília."


Não há dúvidas de que os métodos utilizados por Veja não compensariam, caso jornalismo de verdade fosse praticado. Seria injusto usar e abusar de tais métodos para ter qualquer furo jornalístico. A matéria foi publicada, mesmo com a investigação policial acontecendo em Brasília. E, ao que parece, nenhuma nota que explique ou reconheça os erros foi publicada.


A perseguição do qual foi vítima o ex-ministro José Dirceu serve de alerta para a sociedade brasileira entender, de uma vez por todas, que a democracia nos meios de comunicação que aí está beneficia poucos e que um novo marco regulatório dos meios de comunicação do Brasil é pura justiça.



21.9.11

Milton Santos e a "violência da informação"


Milton Santos foi um daqueles brasileiros que todos nós deveríamos nos orgulhar. Negro e nordestino, tornou-se um dos grandes intelectuais deste país e revolucionou o pensamento geográfico mundial. 

Bacharel em Direito e Doutor em Geografia, o professor Milton Santos faleceu há dez anos. Sua última publicação foi "Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal" (Editora Record) e trouxe a esse mero professor escolar de Geografia que vos escreve uma grata surpresa. Aquele que eu consideraria um tema atual, aparece no livro de Milton com enorme propriedade crítica.

Se o professor estivesse vivo, talvez seria um dos maiores entusiastas de campanhas que pedem a democratização da internet e um novo marco regulatório dos meios de comunicação no Brasil. A urgente necessidade de tornarmos protagonistas aqueles que até então são meros receptores, leitores, ouvintes ou telespectadores, e a consciência de que informação atualmente é negócio, com interesses e visões de lucro está em sua obra.

"O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde. (...) nas condições atuais de vida econômica e social, a informação constitui um dado essencial e imprescindível. Mas na medida em que chega às pessoas, como também às empresas e instituições hegemonizadoras, é, já, o resultado de uma manipulação, tal informação se apresenta como ideologia."

Sábias e lúcidas palavras. Uma visão que ainda é de enorme dificuldade para ser compreendida, já que muitas vezes tudo acaba sendo reduzido a "discurso de esquerdista" ou "de revolucionário". 

Para as grandes corporações da comunicação, não há espaço para ideias e críticas que reprimam e condenem suas atuações. Os interesses delas não é o mesmo interesse da maioria da população mundial; os que lutam por um mundo melhor e mais justo não tem os mesmo objetivos que elas.

Por fim, outra parte do texto do professor Milton Santos:

"As mídias nacionais se globalizam, não apenas pela chatice e mesmice das fotografias e dos títulos, mas pelos protagonistas mais presentes. Falsificam-se os eventos, já que não é propriamente o fato o que a mídia nos dá, mas uma interpretação, isto é, a notícia. (...) O evento já é entregue maquiado ao leitor, ao ouvinte, ao telespectador, e é também por isso que se produzem no mundo de hoje, simultaneamente, fábulas e mitos."

Para saber mais sobre a obra e a vida do professor Milton Santos, acesse sua página oficial.



O Brasil bem representado na ONU



Pude acompanhar com imenso orgulho a primeira participação da Presidenta Dilma Rousseff em uma Assembleia Geral da ONU, a 66ª. Dilma foi direta em todos os assuntos tratados, evidenciando a crescente liderança regional e global do Brasil e o novo enfoque que o mundo precisa ter sob si mesmo.

Dilma, por exemplo, conseguiu resumir uma visão sensata sobre as insurgências populares árabes e a participação das grandes potências políticas e econômicas nesses processos:

"É preciso que as nações encontrem uma forma legítima e eficaz de ajudar as sociedades que clamam por reforma, sem retirar de seus cidadãos a condução do processo. Repudiamos com veemência as repressões brutais que vitimam populações civis. Estamos convencidos de que, para a comunidade internacional, o recurso à força deve ser sempre a última alternativa. A busca da paz e da segurança no mundo não pode limitar-se a intervenções em situações extremas."

Essa parte do discurso deixa claro que a independência dos países e seus cidadãos deve estar à frente de interesses econômicos e políticos pontuais de uma ou outra potência. Usar tais movimentos para alcançar determinados objetivos (que talvez não sejam os mesmo daqueles que se revoltam) é leviano, injusto e incoerente com os novos tempos da política mundial.

Dilma foi direta também ao tratar do tema Palestina. Primeiro lamentou não poder saudar a chegada do país ao parlamento; depois condicionou a tão desejada paz na região ao reconhecimento do estado palestino: "Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender aos legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política em seu entorno regional."

A crise econômica inciou a participação da Presidenta. Dilma praticamente conclamou os governantes do mundo a unirem-se em torno de uma iniciativa legítima que possibilite a solução da crise: "Mais que nunca, o destino do mundo está nas mãos de todos os seus governantes, sem exceção. Ou nos unimos todos e saímos, juntos, vencedores ou sairemos todos derrotados".

Apesar do tom diplomático e subjetivo dessa parte do pronunciamento, a Presidenta cavou espaço para ser mais assertiva e mandar o recado àqueles que precisam ouvi-lo: a regulação do sistema financeiro, qualificado por Dilma como "fonte inesgotável de instabilidade".

Essa temática é de imensa importância e também bastante atual, uma vez que diversos países da Europa parecem ter chegado à conclusão de que impostos sobre as movimentações e ganhos especulativos são apenas uma parte daquilo que pode dar fim à crise e a vulnerabilidade dos países.

Soma-se a esse alerta outra parte importante do discurso: "Essa crise é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países". Esse protagonismo que o Brasil anseia e ao mesmo tempo tem colocado nos últimos anos, sabe-se, não nasce com a eleição do Presidente Lula em 2002. Mas há de se reconhecer que se o caminho escolhido pelos brasileiros tivesse sido outro não teríamos condições de aproveitar tais mudanças na geopolítica mundial.

Sobre o tão desejado assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (uma luta iniciada com o Presidente Lula e o então Ministro da Relações Exteriores Celso Amorim) também esteve presente na fala da Presidenta, que destacou a necessidade de tal Conselho refletir a realidade do nosso tempo (mais plural e menos polarizado), garantindo que o Brasil está pronto para assumir as responsabilidades como membro-permanente.

Por fim, Dilma (talvez sem querer) mandou um recado ao PiG* e àqueles que querem tornar vergonhosa a história de lutas da Presidenta:

- Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade.

O discurso completo da Presidenta Dilma Rousseff você pode ler aqui ou assistir em vídeo abaixo.



*O PiG (Partido da imprensa Golpista) é a denominação para toda a grande mídia brasileira, mais preocupada com o poder do que com a informação. A sigla foi criada e difundida pelo Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada.

20.9.11

Herméticos pela rede

Este simplório blog já publicou aqui sobre as ideias, a força e importância da produção cultural com financiamento colaborativo. Tema em que a internet ganha destaque mais uma vez e sua utilização é determinante.

Tentamos falar com a produção do site/movimento Queremos, mas infelizmente não tivemos resposta. Independente disso, vale destacar a nova ação do site: Os Paralamas do Sucesso tocando o disco "Selvagem", um clássico do rock brasileiro que completa 25 anos de lançamento.

Essa novidade abre espaço para um evento muito esperado: Jorge Ben Jor tocando ao vivo, no violão, todo o disco "A tábua de esmeralda". O disco de 1972 foi revolucionário em sua temática e produção. E foi o último em que Jorge Ben usou seu jeito (também) revolucionário de tocar violão.



Ainda não sabemos a data, mas o show acontece via coletivo Queremos, no Circo Voador.

15.9.11

O PiG e a presidente-ilha

Aquilo que o PiG qualifica como faxina não para. Pedro Novais pediu demissão nesta quarta-feira do Ministério do Turismo.

Não importa o nome dado, a verdade é que Dilma tem conseguido mais espaço em seu próprio governo quando impõe seu jeito fazer política.

Os jornais querem que acreditemos que ela é uma Presidenta-ilha: é a Dilma cercada de PMDB por todos os lados, mas ela é mais! E é aí que tem gente ficando preocupada...

A independência de Dilma em relação ao Presidente Lula sempre foi questionada pela oposição real (o PiG*) e pela oposição de parlamento (PSDB e DEMOs, por exemplo). Estamos no nono mês do primeiro ano do governo da Presidenta e a realidade é outra. Dilma está aprendendo a lidar com a situação de poder que tem e não abre mão de sua personalidade. Além disso o PiG já sabe que não é fácil manipular as vontades e decisões da Presidenta, ela é muito mais do que a candidata do Lula.

Dilma, por exemplo, colocou no lugar de Nelson Jobim ninguém menos do que Celso Amorim. O Escrevinhador Rodrigo Vianna tem detalhes da repercussão dessa decisão na Globo aqui. A direção de jornalismo quer, segundo Vianna, a todo custo "provar" ao seu público que a escolha foi errada e causa incômodo no meio militar; a repórter (cheirosa?) da Folha e agora comentarista da Globo News tem a quase-missão de ser a porta-voz dessa situação. (Nada surpreendente para quem era conhecida como defensora e principal receptora das informações dadas pelo ex-ministro).

A Presidenta, em entrevista ao "Fantástico" fez questão de dizer que não existe faxina. E mais: disse que a saída de Jobim não se deu da mesma forma que as demais.

Independente disso, quem ganha é o Brasil.

Sabemos que a cultura política do nosso país é mais forte do que alguns alfredos nascimentos ou pedros novais. A saída desses nomes não nos livra da má política e dos políticos profissionais. Não é a posição firme de Dilma contra essa politicagem barata por cargos que vai mudar de vez essa situação tão comum no Brasil há tanto tempo. Entretanto é inegável que tais posições firmes da Presidenta são necessárias e importantes.

Diziam que ao tomar posse, o primeiro grupo de ministros nomeados pelo presidente era o "dos sonhos" e que, com o passar do tempo, a política brasileira se encarregava de desmembrá-lo. Com Dilma será diferente: o ministério que terminará esse governo em 2014 será infinitamente superior ao que começou. Graças às vontades da Presidenta.

*O PiG (Partido da imprensa Golpista) é a denominação para toda a grande mídia brasileira, mais preocupada com o poder do que com a informação. A sigla foi criada e difundida pelo Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada.

Os inimigos da blogosfera

Esse simples blog tem uma lista daqueles que são considerados inimigos da blogosfera. É a Lista Eduardo Azeredo de Inimigos da Blogosfera, que tem nomes que tentam, de alguma forma, impor suas vontades e versões para impedir a divulgação de notícias e opiniões por blogueiros de todo o Brasil.

O companheiro Emílio Gusmão, que já foi vítima pelo menos duas vezes de ações de censura contra seu blog, mais uma vez teve de obedecer às decisões da Justiça. A notícia acabou de ser dada pelo Blog do Miro e você pode ler aqui.

17.8.11

Produção cultural e a internet: quais são os novos caminhos?

Quando se coloca em questão a democracia que a tradicional e concentrada mídia brasileira nos impõe, não apenas um noticiário político distorcido e parcial deve ser mencionado. O assunto abrange outros temas, que só evidenciam a necessidade de discutirmos a fundo uma nova política de comunicação no Brasil.

Em um país em que a geração de conteúdo é concentrada e assegurada por uma ultrapassada legislação, os veículos de massa enfiam goela abaixo aquilo que querem: artistas, movimentos, músicas, etc. Entram e saem das paradas de sucesso (e consequentemente da vida da maioria dos brasileiros) os mais variados nomes, a depender da vontade dos detentores do poder de comunicar.

A indústria do entretenimento é um grande negócio e se torna, portanto, um mercado importante. Essa constatação não significa, porém, que devamos achar normal dependermos da mídia para consumir cultura de qualidade (ou simplesmente a cultura que nos agrada).

A internet - de novo ela! - aparece como caminho alternativo.

É por meio dela que fãs de determinado artista estrangeiro se unem e pagam os custos de um show na cidade do Rio, uma vez que na visão de muitos produtores a capital cultural do Brasil "não tem público".

Me refiro às práticas de crowdfunding ou financiamento colaborativo que o Queremos tem utilizado. São pelo menos dez shows de artistas que passariam longe da cidade maravilhosa em uma turnê brasileira, mas que já aconteceram ou estão agendados graças às forças reunidas pela rede.

A ideia é simples, mas significativa: os organizadores levantam os custos do espetáculo, dividem por um número determinado de possíveis compradores e oferecem "ingressos-reembolsáveis" pela internet. Ao atingir o número de compradores suficientes para bancar a contratação, o artista é confirmado; caso contrário, os valores são integralmente devolvidos àqueles que compraram.

Quando o show é confirmado, as bilheterias vendem ingressos da maneira tradicional e se forem vendidos alguns poucos ingressos em preço de mercado, aqueles que compraram o "ingresso-reembolsável" assistem a apresentação sem custo.

No mais recente caso de sucesso o Queremos contratou a banda britânica Metronomy com a ajuda de 220 cariocas e mais três empresas parceiras. O show será em setembro em um dos mais tradicionais palcos da cidade e da música brasileira, o Circo Voador, e em caso de 1260 ingressos vendidos por R$60 os "220 cariocas empolgados" entram de graça.

O responsável por este blog que vos escreve conversou com a principal responsável cultural do Circo Voador.

Na ocasião acontecia o 2º Festival de Cultura Digital, numa programação que reuniu em quatro dias shows do Mundo Livre S.A. e Lobão, por exemplo, além de terem sido oferecidas exposições e ofinas com temáticas como software livre. Tudo isso com ingresso sendo um livro ou uma peça eletrônica quebrada.

Maria Juçá reafirmou o apoio às práticas de conteúdo colaborativo e se colocou na mesma posição do público: os palcos da cidade são também reféns dos grandes produtores.

Há chances de grandes shows nacionais também serem produzidos por meio do crowdfunding, embora as práticas inciadas pela própria Maria Juçá sejam mais vantajosas: um artista de peso é anunciado, o Circo fica lotado e a casa divide os ganhos com a bilheteria.

O Circo, que é também Pontão Cultural do Ministério da Cultura, entra na luta por uma produção cultural mais plural e democrática.

Saiu melhor do que a encomenda


Ontem os telejornais da noite reproduziram diversas vezes o pronunciamento do ex-ministro dos transportes Alfredo Nascimento. Cacique do Partido da República (PR), ele tentou buscar um tom vitimizado para anunciar que seu partido não faz mais parte da base aliada do governo.

Além do discurso no Senado, repetiram-se também as reportagens que disseminavam o suposto descontentamento dos partidos que apoiam o governo Dilma.

Um dos trunfos da então candidata no segundo turno e da já empossada presidenta, a ampla maioria no Congresso parece ter começado a minar. Parece, na visão da grande mídia.

A presidenta já avisou que o combate à corrupção e as "faxinas" continuam, mas não será a mídia a responsável por pautar investigações, investigados e muito menos os "faxinados".

É aí que o PiG* treme.

Os sempre protagonistas passarão a ser aquilo que sempre deveriam ter sido: praticantes de um bom jornalismo.

Ser responsável por fazer a capa do jornal não significa determinar os esforços do governo em determinada época e assunto. Mídia é mídia, governo é governo.

E o PR, hein?!

A verdade é que a saída do PR, nessas condições, acabou por ser melhor do que a encomenda. Os votos dos seus deputados e senadores podem fazer falta, isso é incontestável. Mas é aqui que surge mais uma vez o pedido: não desista, presidenta!

Não podemos negar que a tal da governabilidade é necessária, mas essas situações parecem ter surgido para que tenhamos (nós, os brasileiros) a chance de expulsar, aos poucos, esse jeito vergonhoso de fazer política.

Analistas (do PiG* ou não) dizem que a insatisfação de partidos da base como PR e PMDB não se dão apenas por conta de demissões ou investigações nos ministérios. Dilma tem tentado, sem o sucesso que gostaria, segurar as emendas ao orçamento.

É a obra na estrada, a reforma de posto de saúde ou a construção de escola técnica capitaneada pelo deputado ou senador. Tais emendas ao orçamento garantem que o legislador se mantenha próximo ao eleitorado "fazendo algo".

À sociedade cabe o desafio, mais uma vez: mostrar a importância da competência e rechaçar a politicagem.

*O PiG (Partido da imprensa Golpista) é a denominação para toda a grande mídia brasileira, mais preocupada com o poder do que com a informação. A sigla foi criada e difundida pelo Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada.





16.8.11

"O veneno está na mesa"

Recentemente o cineasta Silvio Tendler lançou o documentário "O veneno está na mesa", que fala sobre o uso indiscriminado de agrotóxicos e demais produtos químicos no campo brasileiro.
O Brasil é o campeão mundial no consumo desses produtos, que garantem produtividade mas deixam o respeito à saúde dos trabalhadores da terra e dos consumidores de lado.

Veja o documentário aqui, em quatro partes:






Os links eu consegui através do blog Vi o mundo.

O poder que as transnacionais exercem sobre nossas vidas, mais uma vez, é assunto para muita discussão e luta.

Não é possível permitir que a corrida cega pelo lucro e a competição desenfreada por mercados tomem o lugar do respeito ao meio ambiente e à vida humana, no mínimo.

As políticas públicas para o campo no Brasil que sempre priorizaram o latifúndio monocultor e que visa o mercado externo, assim permanecem. O apoio à agricultura familiar cresceu significa e indiscutivelmente nos últimos anos, mas ainda continuamos reféns de práticas produtivas perigosas.

O modelo do latifúndio exportador - é bom que se diga - não é a referência para um Brasil mais justo e limpo.

28.7.11

O que te ofende?

Acabei de assistir no Jornal Hoje uma matéria sobre projeto de lei apresentado pela deputada estadual Luiza Maia (PT/BA) que proíbe prefeituras e governo estadual de contratarem artistas que produzam músicas com duplo sentido e que ofendam as mulheres. Achei agora uma reportagem na Folha que fala sobre o projeto, que você pode ler aqui.

Uma grande bobagem e perda de tempo, erros muito comuns na prática de muitos políticos brasileiros, infelizmente.

A proposta, muito confusa, só oferece uma certeza: é o poder público tentando (ab)usar do seu poder para censurar uma prática cultural.

Não há como não relacionar essa proposta à lei do então deputado estadual pelo Rio Álvaro Lins (que teve o mandato cassado em 2008). A lei determinava que os bailes funk só aconteceriam no estado do Rio com autorização prévia de órgãos como a polícia militar. A proposta foi barrada e, para isso, contou com o apoio de muitos artistas e intelectuais brasileiros.

Um ponto relevante: não importa se há os que aceitem ou não os pagodões como música; tampouco estamos aqui para dizer que músicas, artistas ou ritmos têm qualidade e os que não têm. Apenas o público deve dizer o que lhe agrada, dando espaço e sucesso a um artista e suas músicas.

Além de superestimar sua visão de cultura, a deputada é falha também ao não definir quais são os critérios que enquadram uma letra como desrespeitosa às mulheres, sua honra ou feminilidade. Afinal, o que pode ser elogios para uma, pode ser ofensa para outras. A deputada é, portanto, mais capacitada do que qualquer mulher para perceber os "absurdos"? Creio que não.

Sem demagogas comparações: "Não enche", de Caetano Veloso, pode ofender algumas mulheres. Por esse motivo uma prefeitura não poderá oferecer um show de uma maiores artistas brasileiros? Não ferra, deputada!


E mais: quem acompanha um pouco do carnaval baiano sabe que em meio aos desfiles de blocos afro e pagode baiano estão aqueles artistas que fazem muito sucesso em todo o país e são muito beneficiados por contrações do setor público e até participam do programa de captação de recursos via lei Rouanet. São os nomes de peso do axé, como Ivete Sangalo, que canta em seus shows as mesmas músicas que a deputada considera ofensivas. Ou seja: além de censurar alguns artistas, a deputada quer mudar o set list dos shows daqueles que foram aprovados?

A censura - sob qualquer aspecto - deve ser muito bem discutida, avaliada e, claro, deixada de lado. Não podemos admitir que qualquer movimento cultural possa ser cerceado sem que existam motivos relevantes e reais para tal.

27.7.11

Dica de cinema

Assisti no sábado passado ao documentário "Filhos de João - O admirável mundo Novo Baiano", de Henrique Dantas. As entrevistas contam o surgimento do grupo, suas ideias, visões de mundo... Uma viagem interessante por um Brasil que muita gente já quis viver, mesmo sabendo que vivíamos os anos de chumbo.

Destaque para a participação do genial Tom Zé e para falta de Baby do Brasil, que gravou sua participação, mas desistiu de autorizá-la antes de o filme ser finalizado.

Interessante também são as imagens de Salvador nas décadas de 1960 e 70, de filmes da época e até do arquivo da cidade. Belos registos!


Em tempo: ao falar dos Novos Baianos nesse blog, não posso deixar de lembrar desse flagra que fiz em uma Lojas Americanas daqui do Rio.