30.1.12

Agora, com calma: revolta inevitável.




No calor dos acontecimentos, a gente deixa de perceber detalhes importantes ou mal consegue simplificar sentimentos.

Estando distante espacialmente de algo que nos choca, fica difícil entender o que acontecer de verdade.

Buscando informações em veículos de imprensa parciais, por mais capacitado que sejamos para distinguir o que pode e o que não pode ser aproveitado para formar nossa opinião, acabamos tendo pouco sucesso. Somos, portanto, mal informados e ponto.

A injustiça, o uso de forças de maneira desproporcional e dispensáveis em Pinheirinho não são, infelizmente, novidades no Brasil. No país da falsa democracia da informação, dos direitos básicos renegados aos seus cidadãos e da pobreza que é culpa do pobre, somos acostumados a viver os absurdos e a esperar a próxima situação extrema.

As equipes de televisão fazem poucas entrevistas com os moradores e, quando o fazem, são capazes de desacreditar homens e mulheres, pobres trabalhadores deste país. Há jornalista que prefere (tendo tempo para fazer boas entrevistas ao vivo sobre o tema) dizer que Pinheirinho estava dominada por um ou outro partido de "extrema esquerda", como se os pobres do Brasil fossem facilmente manipulados visando as eleições.

Dói ver brasileiros exibindo um punhado de roupas enquanto contam para jornalistas independentes as ações violentas que viveram e viram, a agilidade que tiveram que ter para retirar os pertences pessoais que podiam e o susto que levaram ao serem acordados em uma manhã de domingo.

Como se tudo já não bastasse, (mais) um banqueiro corrupto vai ser beneficiado em detrimento direto dos mais pobres deste país. Naji Nahas, através de sua empresa falida, recebeu da Justiça o direito de ter o terreno em que Pinheirinho foi criada há alguns anos para seu poder. O terreno deve cerca de 15 milhões de reais em impostos, mas vale 180 milhões e se tornará daqui há alguns anos a residências de outras famílias que possam pagar (caro) por um bom apartamento.

Até quando aqueles que detêm o poder da informação serão os responsáveis por filtrar quem vai ser entrevistado, podendo deixar de lado milhares de famílias? Os que sofreram o massacre em Pinheirinho não têm tido espaço sequer para chorarem suas perdas - em alguns casos, perdas de familiares e amigos.

É preciso que nós nos posicionemos e não tenhamos medo, vergonha ou autorrestrições de comentarmos e debatermos nas redes sociais, no cafezinho do trabalho ou na mesa do bar os absurdos sobre os quais tivermos informações. Informações essas que são cada vez mais bens preciosos a que poucos têm acesso.

Curta, compartilhe, escreva, critique, pergunte. Não assista, apenas. 

  

27.1.12

Para o PiG*, tudo se resume a política eleitoreira.

Ex-moradora de Pinheirinhos, dona Josefa chorou a reintegração de posse promovida pela Justiça e pela PM de São Paulo.
Foto: Reinaldo Marques/Terra.

Algumas pessoas se referem à Constituição de 1988 como Constituição cidadã. Por cidadão entendemos indivíduos que cumprem deveres e têm seus direitos respeitados. 

Depois de passados alguns dias da reintegração de posse do terreno de propriedade do especulador Naji Nahas (o banqueiro que faliu a Bolsa de Valores do Rio e foi preso em 2008 pela operação Satiagraha), os moradores da favela em São José dos Campos (SP) permanecem mal acomodados e sem garantias de terem acesso a moradias dignas enquanto outros optaram por fugir. 

Eram cerca de 6 mil moradores em Pinheirinhos. E a Polícia Militar chegou à favela com cerca de dois mil soldados. Casas foram destruídas, mesmo com móveis e pertences pessoais dentro; gás lacrimogênio e bolas de borracha foram utilizadas para conter as reivindicações e protestos daqueles que resistiam à decisão judicial; moradores denunciam o sumiço de amigos e familiares que foram levados a hospitais (veja aqui). A cidadania por aqui é assim.

Mônica Waldvogel, apresentadora do "Entre aspas", da Globo News, optou por discutir outros temas com o pano de fundo Pinheirinhos: "a discussão (sobre a reintegração) mostrou sinais de contaminação política". A jornalista, que faz parte do maior grupo de comunicação do país e tem na TV Globo uma programação diária com pelo menos cinco telenovelas de qualidade de conteúdo duvidosa, se acha suficientemente capaz de questionar o movimento de resistência dos moradores pelo fato de um partido, o PSTU, "liderar" a "ocupação ilegal".

É simples: exibir imagens de passeatas pelo país que protestam contra a corrupção usando cartazes "Fora Lula", pode; envolver partidos políticos na defesa de um direito básico dos brasileiros, não.

No mesmo programa Mônica parece se sensibilizar com a sinuca de bico a que os juízes paulistas foram submetidos. Para ela, os representantes da Justiça precisaram "cumprir a lei". Que lei, senhora Mônica? A mesma constituição que garante o direito de propriedade, garante o uso social da propriedade e o direito à moradia. 

O fato de a empresa proprietária do terreno - controlada por Naji Nahas - dever mais de 15 milhões de reais em IPTU não tem sido mencionado pelo PiG, assim como não se divulga devidamente que o atual valor de mercado do terreno é de 180 milhões de reais e que estamos acompanhado nada mais do que a ferocidade do evidente processo de especulação imobiliária.

Por outro lado, a imprensa noticiou saques e áreas em que os moradores consumiam crack - para o PiG, pobre consumir drogas é gravíssimo; o mesmo acontecer na Avenida Vieira Souto é detalhe.

Não há dúvidas de que a cobertura do caso tem um lado: o dos poderosos, embora a mídia use e abuse da falsa imparcialidade.

Moradia digna e preconceito
Para piorar a situação, li com revolta a reportagem da Folha de S. Paulo reproduzida pelo Blog do Nassif  (veja aqui) em que se questionava e denunciava a péssima qualidade de apartamentos populares entregues às famílias em dezembro de 2010 em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. O diretor regional da CDHU (Companhia de Desenvolvimento de Habitação e Urbanismo), Milton Vieira de Souza Leite, explicou o porquê de rachaduras, janelas que não fecham e pias que vazam água:

- A gente conhece o nível de educação (dos moradores)... O pessoal veio da favela. Não está acostumado a viver em casa.

Sobre uma pia de cozinha que caíra após um dos moradores colocar sob ela uma cesta básica, a resposta foi:
- O que ele foi comer foi outra coisa.

Isso vai ficar impune, governador Geraldo Alckmin?

*O PiG (Partido da imprensa Golpista) é a denominação para toda a grande mídia brasileira, mais preocupada com o poder do que com a informação.A sigla foi criada e difundida por Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada.





23.1.12

A Justiça é cega ou somos nós que fechamos os olhos para ela?

A ministra do STF e corregedora do CNJ Eliana Calmon: "Há bandidos de togas". 
Fotos de divulgação

O sistema político brasileiro é composto pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, todos equivalentes e dependentes dos demais para que o Estado brasileiro funcione. Em outras palavras: devem trabalhar juntos, discutindo aquilo que for importante para o Brasil e para os brasileiros.

A imprensa - que desde os meus tempos de aluno do Ensino Fundamental e Médio é classificada como o quarto poder deste país - parece fazer questão de confundir tudo. Dá sinais indiretos de que destes poderes, apenas o Judiciário pode ser respeitado. Os "políticos" são naturalmente suspeitos e têm perante o senso comum uma péssima imagem, enquanto os juízes e demais membros do poder Judiciário os controlam e prezam, como ninguém, pelo cumprimento das leis. Há controvérsias. Há cada vez mais controvérsias.

É assim que o jornalismo declaratório ganha cada vez mais espaço nos jornais, revistas e grandes canais de televisão, causando alarde na política brasileira mesmo sem provar nada. Por outro lado a atuação dos juízes e magistrados não é questionada, como se estes fossem isentos de erros, negociatas e desvios de conduta.

Recentemente, Eliana Calmon, corregedora do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e sua atuação passaram a ser desqualificadas por colegas seus do Superior Tribunal Federal e associações de juízes. Frases polêmicas e posicionamentos radicais (na visão de poucos, mas poucos poderosos) têm causado discussões de naturezas muito variadas - e assim perdemos o foco daquilo que é mais importante: cobrar uma ação eficaz e independente dos órgãos do Judiciário brasileiro.

Não é difícil encontrarmos indícios de que a justiça tenha inúmeras vezes optado por ficado ao lado de quem pagou mais ou, no mínimo, de que interesses pessoais confundiram-se com o papel de homens públicos. Esses indícios são, para a ministra Calmon inaceitáveis e é assim ela parte para o enfrentamento e busca que os nomes de segunda instância e superiores deste país possam ser investigados por órgão independentes, quando for necessário.

- Os desembargadores não são investigados pela corregedoria. São os próprios magistrados, que sentam ao lado dele, que vão investigar.

Associação dos Magistrados do Brasil (AMB) já repudiou diversas vezes as palavras e ações da ministra, acusando-a, inclusive, de ter praticado quebra de sigilo ilegalmente. A resposta veio rápida e a reclamação não pôde ter mais eco entre a sociedade:

- Só posso lamentar a polêmica, que é fruto da maledicência e irresponsabilidade da AMB, da AJuFe (Associação dos Juízes Federais do Brasil), e da Anamatra (Asssociação dos Magistrados da Justiça do Trabalho), que mentirosamente desinformam a população ou informam com declarações incendiárias e inverossímeis.

E não parou por aí: quando chamada a explicar estas denúncias sobre investigação de funcionários do Judiciário e familiares, a ministra afirmou, pasme!, que 45% dos juízes do estado de São Paulo não declaram Imposto de Renda em 2009 e que em outro estado, no Mato Grosso do Sul, nenhum magistrado fez a declaração anual em 2009 e 2010.

Há algo de errado com a Justiça brasileira.

Vide a vergonhosa e violenta reintegração de posse do terreno onde se localiza a comunidade Pinheirinhos, em São José dos Campos (SP). Autorizada pela justiça paulista, mas considerada ilegal pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em virtude de acordo garantido pela justiça federal, já causou a morte de, pelo menos, uma criança de três anos. Há outras seis mortes ainda não confirmadas oficialmente, mas informadas pelos moradores locais.

A retirada à força de pelo menos 10 mil pessoas de suas residências já causaria indignação pelo fato de um direito básico da humanidade, a moradia, ter sido preterido pela garantia à propriedade privada. Entretanto, a justiça paulista - certamente não muito diferente dos demais estados - resolveu esquecer ou não perceber que a reintegração de posse foi solicitada pela massa falida de uma empresa do banqueiro ladrão Naj Nahas, preso pela operação Satiagraha da Polícia Federal.

Este blogueiro que vos escreve não pode provar, mas se mantém no direito de duvidar dos motivos que fizeram um juiz concordar com a retirada de milhares de famílias trabalhadoras em respeito à propriedade privada de um banqueiro corrupto.

Há algo de errado com a Justiça brasileira.   

22.1.12

A avaliação duvidosa e o medo do progresso

A Argentina de Cristina e Nestor Kirchner, responsáveis pelo crescimento econômico do país após anos do neoliberalismo de Menen, privatizações, desemprego em alta e inevitável crise que derrubou alguns presidentes, tem muito a ensinar aos brasileiros e demais países latinos no que se refere a regulação audiovisual e da comunicação

Celebrada pelos sindicatos, intelectuais e movimentos sociais de lá, a Ley de Medios ainda é constantemente atacada pelos grupos de mídia dos hermanos como o Clarín - a Globo deles - e essas críticas têm eco aqui no Brasil, via PiG*.

São cada vez mais frequentes os artigos ou matérias sobre a perseguição que a "imprensa independente" (?) recebe do governo. Parece que os grupos de mídia por aqui têm medo da onda progressista que pode tomar conta da América Latina, mesmo o Brasil tendo avançado tão pouco nos últimos anos.

Imprensa independente de que quem, amigo navegante? - copiando Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada

Independente do povo argentino e dos seus anseios, só se for. O que o Clarín representava por lá pode ser chamado de qualquer coisa, menos de independência.

Este blogueiro que vos escreve esteve em Buenos Aires no mês passado e conversou com muitos portenhos. A imensa maioria não somente reconhecia os êxitos do casal Kirchner, como também o apoiava. Nessa viagem pude, ainda, comprar o livro "Ley 26.522 - Hacia un nuevo paradigma en comunicación audiovisual" em que diversos artigos demonstram a importância e a grandeza de lei aprovada por lá em 2010 após amplo debate entre governo e sociedade civil.

Capa do livro organizado por Mariana Baranchuk e Javier Rodríguez Usé.
Retirado do site GenteBA.

No livro, o brasileiro Dênis de Morais expõe números que facilitam a vida dos que duvidam que o Clarín seja a "imprensa independente" da Argentina:
"o Clarín controla 31% da circulação dos jornais, 40,5% da TV aberta e 23,2% da TV paga"
Informação não pode ser negócio e, muito menos, negócio controlado por poucos.

Para aqueles que temem o progressismo que alguns países latinos estão conhecendo, a democracia não diz nada. Desmerecem o êxito Nestor, a inevitável eleição de Cristina (que colunista convidado do PiG classifica como "transferência do poder") e sua reeleição com 54% dos votos em novembro passado.

É chegada a hora do enfrentamento democrático verdadeiro, que vai além das eleições e exige igualdade. A Argentina já deu os primeiros passos. Chegou a hora de segui-los.

*O PiG (Partido da imprensa Golpista) é a denominação para toda a grande mídia brasileira, mais preocupada com o poder do que com a informação. A sigla foi criada e difundida pelo Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada. 

23.12.11

Marcelo Freixo: significa?

Foto: Oscar Cabral/Veja Rio.

O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL/RJ) é um dos nomes mais comentados da política fluminense nos últimos meses. Seus dois mandatos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) têm repercutido não somente por causa de sua atuação como presidente da CPI das Milícias (e as consequentes ameaças de morte que vem recebendo desde então), mas também pela clareza que utilizou para transformar o funk em movimento cultural e derrubar a lei que exigia autorização da Polícia Militar para que bailes em favelas do estado pudessem acontecer.
 
Já declarado pré-candidato à prefeitura do Rio e normalmente apresentado como alternativa (por si mesmo e pela grande mídia que inegavelmente o legitima), tenho dúvidas se Freixo conseguirá formar/liderar uma aliança verdadeiramente progressista para a cidade.

Seu discurso - no que tange as milícias, poderes corrompidos e (in)eficiência do Estado - é coerente e plausível, mas tudo isso parece perder valor quando o deputado assume de vez as politicagens necessárias para ser eleito, embora se dê o direto de criticar as alianças feitas, por exemplo, pelo PT quando o partido chegou à Presidência da República em 2003: "Saí do PT quando o PT saiu de si".

Sua possível aliança com Fernando Gabeira dificilmente formará uma candidatura de enfrentamento ao péssimo modelo de gestão que a cidade carrega desde os mandatos de Cesar Maia - que teve o PV de Gabeira em seu secretariado. Ou seja: aliança PT-PMDB é coisa de partido vendido; PSOL-PV é necessidade imposta pelo sistema político brasileiro.

Até Romário, hoje deputado federal pelo PSB/RJ e até outubro de 2010 mais um candidato-galhofa, tem conversado sobre as eleições de 2012 com Marcelo Freixo. A justifica é tão coerente quanto protestos contra corrupção pela orla do Leblon:
"A grande aliança é com a sociedade civil. Interessa muito o apoio da Marina Silva, que está num campo ético. Vou conversar com o Romário, por que não? O Romário tem sido um aliado nas brigas nossas contra a CBF. Estamos conversando com o Gabeira."  
O deputado federal Romário (PSB/RJ) no apoio à Marcelo Freixo "brigando" contra a CBF.
Foto: Jorge William/Agência O Globo

Freixo parece escolher momentos e temas que lhe permitam sair atirando para todos os lados, angariando votos que jamais seriam dados a ele, candidato sem experiência no poder executivo e assumidamente socialista.

É assim que ele permite classificar o filme "Tropa de Elite 2" como "um primor do cinema", destacando: "O personagem (deputado Diogo Fraga) é mesmo muito baseado em mim".

É dessa forma que ele confirma o discurso do medo e aponta a "segurança pública" como principal problema do Rio, a cidade partida. Desigualdade social? Moradias sem dignidade? Transporte caro e sem qualidade? Não, esses não parecem ser assuntos principais para Marcelo Freixo.

A candidatura de Freixo poderia, sim, significar um avanço na política carioca, mas parece que estamos caminhando para uma reedição do que aconteceu em 2008: uma parcela da população (auto-intitulada elite intelectual da cidade) tem se entusiasmado com um rosto novo, uma falsa ideia de renovação, esquecendo-se de pensar projetos, ideias e, principalmente, viabilidade.

12.11.11

SÉRIE - Futebol para todos: muito além do grito de gol

3) A história se repete. Chegou a hora de aprender com os hermanos.


Desde que chegou ao Brasil, o futebol encontrou na cidade do Rio de Janeiro um belo cenário para desenvolver-se e tornar-se popular, sendo referência no país durante muito tempo. A influência política e cultural da cidade explica, em parte, a enorme quantidade de torcedores de Vasco e Flamengo em diversos estados brasileiros.

O tempo passou e muitas mudanças aconteceram. Algumas partes da história, entretanto, não apenas têm se repetido como talvez nunca tenham sido diferentes. Matéria de 1961 republicada recentemente na seção "Há 50 anos" de O Globo é um exemplo: "No choque de interêsses, o prejudicado foi o torcedor" (veja aqui). 

O conflito denominado pelo jornal como "caso dos clubes cariocas x TVs" se dava pelo fato de os clubes cariocas não terem autorizado as transmissões televisivas dos jogos e, por isso, terem sofrido retaliação por parte do governador do então estado da Guanabara, Carlos Lacerda. O governador era claro aliado de uma televisão que tinha pouco poder à época e exerceu seu poder aumentando o preço dos ingressos e proibindo o uso do Maracanã para jogos que não fossem transmitidos.

Qualquer semelhança com os desmandos da CBF e de Ricardo Teixeira dos últimos 23 anos podem não ser mera coincidência.

A Ley de Medios
Reeleita presidenta da Argentina recentemente, Cristina Kirchner teve muitos êxitos a apresentar durante sua campanha, sobretudo no que diz respeito ao crescimento econômico do país e melhora nos índices sociais (como diminuição do desemprego e aumento do poder de compra da população). O desafio, ela reconhece, foi iniciado no governo do seu marido, Néstor Kirchner, empossado presidente em 2003 e morto há pouco mais de um ano.

A Lei de Mídias, de 2009, provocou uma revolução no cenário argentino, uma vez que desmontou os grandes grupos de mídia do país balizada em noções básicas de liberdade de expressão. O que, afinal, podemos aprender com nossos vizinhos e o que isso tem a ver com o futebol brasileiro?

Até então concentrado nas mãos de um grande conglomerado de mídia (o do jornal Clarín), o futebol argentino recebeu um forte incremento de verba quando passou a ser atração da TV pública. O poder do Estado argentino foi superior aos interesses privados e permitiu que os campeonatos de primeira e segunda divisão pudessem ser transmitidos também nas emissoras privadas interessadas.

Repetir a iniciativa por aqui parece pouco provável, uma vez que os clubes brasileiros detêm poder total sobre seu direito de imagem e podem negociar individualmente com emissoras diferentes. A liga de futebol daqui (leia-se CBF) não tem a autoridade de negociar em nome de todos os clubes e fechar, por exemplo, com a pública TV Brasil. De certa forma era assim que acontecia até este ano, quando a responsabilidade era do Clube dos 13, rapidamente desautorizados pelos clubes grandes e seguidos pelos menores.


O dinheiro público pode ter destinos mais importantes do que o futebol brasileiro, é verdade. Não parece ser possível tampouco necessário gastarmos bilhões de reais com entidades desportivas que já devem tanto e, além disso, são pouco transparentes nos seus gastos (embora o uso do dinheiro público exija o contrário, o que seria um ganho). Nosso aprendizado com os hermanos é simples: a TV pública pode e deve concorrer com a iniciativa privada, sendo mais democrática e plural.

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O blog Pra Escrever apresenta uma série de postagens sobre as negociatas e politicagens do futebol brasileiro, reunindo publicações e críticas recentes da imprensa.

1) O jogo em que Ricardo Teixeira é o capitão.
2) Os contratos de transmissão no Brasil.
3) A história se repete. Chegou a hora de aprender com os hermanos.

   

9.11.11

Exemplos: Twitter e protagonismo; televisão e passividade.

O avanço no uso da internet e a queda na audiência das TVs e na venda de jornais e revistas têm sido responsáveis por iniciar discussões muito variadas, em que uma dúvida/temática é frequente: a televisão vai perder importância? Os jornais pararão de circular?

No Brasil, as ferramentas que centralizam essas discussões não tomam o espaço da televisão, o veículo mais utilizado e influente, pelo menos agora. No Twitter, os trending topics (os assuntos mais comentados no Twitter em determinado momento) sempre têm referências aos programas de televisão, indicando que as duas mídias não competem, mas completam-se.

Dessa forma a discussão tem outros focos. 

O avanços dos meios técnicos e informacionais mudou as relações de produção e consumo de notícias e cultura em geral, em todo o planeta. As redes de comunicação (incompletas por definição) tornam alguns pontos mais ou menos integrados à ela, é verdade, porém as mudanças são inegáveis e irreversíveis. 

Hoje temos espaço para protagonismos democráticos, sob dois eixos: 1) todos que tenham acesso a esses meios técnicos podem produzir notícia e contribuir com pareceres diferentes (mais democrático, portanto); 2) optar pelo que ouve e lê, em meio a cada vez mais ofertas. A natureza dessas tecnologias que podem veicular informação e/ou cultura é descentralizadora e assim o internauta tem muitas possibilidades à sua frente e não apenas a visão parcial e restrita dos grandes grupos de mídia.

Saímos da dependência total das grandes redações, por exemplo, e temos a possibilidade de sermos mais livres. A grande redação continuará tendo importância, sim, mas coexistirá com outras formas de produzir notícias.

O Twitter sozinho nada faz. Ainda que existam usuários do microblog leiam mais do escrevam, estes optam por quem vão seguir. A televisão, símbolo da comunicação no Brasil há tanto tempo, caracteriza-se por levar ao telespectador o produto finalizado, já formatado, com crítica e tudo. Torna o receptor da mensagem passivo

Uma enorme quantidade de canais na TV aberta ou fechada e até mesmo muitas revistas e jornais em circulação não significa democracia e pluralidade, principalmente no Brasil em que onze famílias controlam o que vai ser discutido nesses meios tradicionais. A diversidade só acontece quando todos os atores sociais - negros, sem-terra, mulheres, nordestinos, favelados etc - têm chance de falar

Essas minorias não veem espaço para seus discursos nas grandes redações, mas podem formar uma.

7.11.11

Ignacio Ramonet no "É notícia"

O programa "É notícia", apresentado pelo jornalista Kennedy Alencar na Rede TV!, mostrou nessa semana uma entrevista com o sociólogo Ignacio Ramonet. Um dos criadores do Fórum Social Mundial, Ignacio falou sobre a imprensa mundial e seu papel no mundo com a internet, o papel do Wikileaks, além de ter uma posição coerente sobre o regime político cubano e o embargo promovido pelos EUA ao país latino há tantos anos.

Vale a pena assistir!

31.10.11

SÉRIE - Futebol para todos: muito além do grito de gol

2) Os contratos de transmissão no Brasil

Em 2011 os clubes brasileiros de futebol da Série A firmaram novo contrato de transmissão dos jogos do Campeonato  Brasileiro com a TV Globo (leia-se: Globo, SporTV e Premiere Futebol Clube, o pague-para-ver) que vale para os anos de 2012 a 2014. 

O contrato atual não corresponde às orientações e determinações do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) do ano passado e, por isso, a assinatura estipulada para esse ano gerou expectativas, já que as emissoras interessadas (Record e Rede TV!, por exemplo) sentiram-se, enfim, protegidas e seguras para negociarem. 

Um compromisso firmado entre o Cade, o Clube dos 13 (até então o representante dos clubes) e a própria Globo pôs fim à cláusula de preferência. Com ela a Globo mantinha o poder de oferecer os valores pela transmissão por último, o que sempre impedia a concorrência das demais emissoras e feria "a igualdade entre os concorrentes", conforme comunicado que você pode ver aqui.

Uma briga política nos bastidores do Clube dos 13 (C13) e da CBF (a Confederação Brasileira de Futebol) foi constantemente comentada e noticiada por jornalistas e blogueiros, indicando que nem sempre o interesse financeiro dos clubes esteve em primeiro lugar. Alguns dirigentes garantiam apoio total ao já isolado Fábio Koff (presidente do C13) enquanto a maioria já havia assinado com a Globo. 

O acordo capitaneado pelo CADE representava maior liberdade e garantia econômica aos clubes, embora a imensa maioria estivessem/estejam presos a empréstimos feitos junto ao C13 e a antecipações de valores solicitados junto à Globo. Além disso, mesmo extremamente atrasado, o acordo finalmente deixava a disputa pelos direitos de transmissão mais justa. O blog do Juca Kfouri publicou a carta-convite recebida pelo SBT para participar do processo de escolha e nela, surgiram importantes novidades. Veja a carta neste post.

Uma das novidades era a preferência pela venda segmentada às diferentes mídias. Acreditava-se que fazendo leilões para diversos interessados os clubes arrecadariam mais.

Outro ponto, o mais importante, era que somente para a televisão aberta o C13 exigia R$500.000.000,00 por temporada (total de R$1,5 bi pelo triênio), valor já superior ao que a Globo havia pago pelo "pacotão" (TV aberta e fechada, pague-para-ver, Internet e telefonia móvel) das temporadas de 2009 a 2011: R$1,4 bi, segundo comunicado da própria emissora disponível aqui.

Por fim, a Record estava empenhada não apenas em pagar caro, mas também em usar o futebol para competir fortemente com a Globo: as transmissões dos jogos iriam para o horário nobre, batendo de frente com o Jornal Nacional e novela das nove.

Todo o esforço do C13 foi por água abaixo, pois a Globo optou por negociar diretamente com os clubes, o que foi inicialmente vantajoso para os grandes, mas parece alterar pouco a relação de dependência com a emissora dos Marinho. Segundo informações de Paulo Vinícius Coelho, o PVC, em seu blog no sítio da ESPN Brasil, os valores negociados clube a clube possibilitaram aumentos pontuais, mas que dificilmente cobririam o contrato do C13.

Os supostos valores são, segundo apuração da Folha de S. Paulo, de 43 para 100 milhões de reais para o Flamengo e de 21 para 55 milhões de reais para o Botafogo. Os dez maiores (supostos) contratos podem ser vistos nesse gráfico.

Todo a disputa, que teve a Rede TV! como única emissora a enviar proposta ao C13 após desistência da Record, foi até o mês de maio quando, enfim, a Globo já havia garantido novamente a compra do "pacotão".

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1) O jogo em que Ricardo Teixeira é o capitão.
2) Os contratos de transmissão no Brasil.
3) A história se repete. Chegou a hora de aprender com os hermanos.   

26.10.11

SÉRIE - Futebol para todos: muito além do grito de gol

1) O jogo em que Ricardo Teixeira é o capitão

Ricardo Teixeira concentra muito poder no futebol brasileiro, além de ser bastante próximo de nomes como o brasileiro João Havelange (presidente da FIFA de 1974 até 1998) e do suíço Joseph Blatter (sucessor de Havelange, com mandato até 2015).

Presidente da CBF há 22 anos, Ricardo Teixeira tem mandato até 2014 (ano da Copa no Brasil) e planos de presidir a FIFA a partir de 2015. Além disso, acumula o cargo de presidente do Comitê Organizador da Copa no Brasil (em que sua filha é a diretora-executiva). É ele que tem decidido junto das autoridades brasileiras o destino de bilhões de reais na construção dos estádios, por exemplo.

Embora tenha garantido em texto publicado na Folha de S. Paulo que a Copa no país do futebol seria bancada quase que integralmente pela inciativa privada, não há como negar a importância dos investimentos de governos municipais, estaduais e, principalmente, do governo federal. Há números que falam em mais de 98% da conta paga pelo dinheiro do contribuinte - o nosso.

A relação entre público e privado, como se vê, é bastante complexa na cabeça de Teixeira. Na bela reportagem da revista Piauí publicada em julho e assinada por Daniela Pinheiro (leia aqui), ele esbraveja: "Que porra as pessoas têm a ver com as contas da CBF? Que porra eles têm a ver com a contabilidade do Bradesco ou do HSBC? Isso tudo é entidade pri-va-da. Não tem dinheiro público, não tem isenção fiscal. Por que merda todo mundo enche o saco?".

Grande leviandade! A FIFA, para garantir seu lucro (estimado em 4,6 bilhões de dólares por mundial) e o de seus parceiros faz as mais variadas imposições. Entre elas, a isenção fiscal para todas as atividades que envolvam a Copa de 2014. A lógica é simples: para ser investigada, a Copa, a FIFA e a CBF são entidades privadas; para receberem dinheiro público são parceiras do governo brasileiro.

Mesmo que não falemos em uso de dinheiro público (o que não é o caso da CBF e da Copa, que se confundem na pessoa de Ricardo Teixeira), as empresas têm regras e leis a respeitar e detalhes a fornecer a diversos órgãos.

Ainda à revista Piauí, Teixeira deixou claro que o poder que ele concentra justifica qualquer arbitrariedade e retaliação. Diversos jornalistas e publicações são seus inimigos, seja abertamente declarado ou através das dezenas de processos abertos por ele (só contra Juca Kfouri já foram cinquenta): "É tudo coisa da mesma patota, UOL, Folha, Lance, ESPN, que fica repetindo as mesmas merdas". "Merdas" foi a palavra escolhida para resumir as denúncias de corrupção e enriquecimento ilícito.

Toda essa indiferença se completa com uma segurança inabalável: "só vou ficar preocupado, meu amor, quando sair no Jornal Nacional". Nesse ponto Ricardo Teixeira parece ter um pouco de razão. O maior grupo de comunicação do país costuma ser mais fiel aos seus interesses comerciais, como garantir as transmissões dos jogos do Campeonato Brasileiro e da Seleção, do que aos assuntos que correm o mundo. A TV Globo preferiu blindar o presidente da CBF em rara entrevista durante o processo eleitoral da FIFA, enquanto toda a imprensa esportiva mundial repercutia denúncias sobre pedido de propina em troca de apoio à candidatura da Inglaterra para a Copa de 2018.

Não são poucas as histórias de bastidores que vêm a público sobre demonstrações de força, ora por parte da Globo, ora por parte de Ricardo Teixeira. A mais emblemática, entretanto, é de 2001, quando o Congresso brasileiro fazia a CPI da Nike. Em um Globo Repórter (veja abaixo, em quatro partes), a emissora questionou o patrimônio de dirigentes, entre eles Teixeira, em comparação a seus rendimentos. A resposta foi rápida: o clássico Brasil x Argentina foi repentinamente remarcado para as 19h45. "Pegava duas novelas e o Jornal Nacional. Você sabe o que é isso?", revelou o nome forte do futebol brasileiro na mesma entrevista à Piauí.

A inevitável pergunta é: os rumos do esporte mais praticado e assistido do Brasil está nas mãos da pessoa certa? Ao que tudo indica, não. Ricardo Teixeira usa a CBF para demonstrar e ampliar sua influência, sem medo, e com constantes ameaças.

Fora das quatro linhas - para não dizer que também dentro delas - o que menos importa é o futebol. O capitão Ricardo Teixeira quer mesmo é levantar a taça de poderoso. 







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1) O jogo em que Ricardo Teixeira é o capitão.
2) Os contratos de transmissão no Brasil.
3) A história se repete. Chegou a hora de aprender com os hermanos.






      

24.10.11

Futebol para todos: muito além do grito de gol

Em tempos de preparação para a Copa do Mundo de 2014 e denúncias sem provas sobre o titular do Ministério dos Esportes, Orlando Silva, este blog prepara uma série de postagens sobre algumas questões que envolvem o esporte considerado paixão nacional, mais precisamente sobre suas politicagens e interesses.

Até que ponto as negociações das quais participam os cartolas são interesse privado?

Que poder a mídia brasileira exerce nos bastidores do futebol? E, principalmente: há motivos para pensar o futebol apenas dentro das quatro linhas?

Ainda que o Brasil seja realmente o país do futebol, o que podemos aprender com os demais?

Há diversas considerações a serem feitas antes que essas perguntas sejam respondidas.

Ricardo Teixeira preside a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, há 22 anos e parece fazer escola entre os clubes brasileiros. Dirigentes mantém-se no poder por sucessivos mandatos (quando há eleições) e permitem que até mesmo os torcedores mais desinteressados questionem se os interesses dos clubes está em primeiro lugar.

No país que vai receber os dois maiores eventos esportivos do planeta em três anos e que cresce economicamente distribuindo renda há pelo menos seis, os investimentos no esporte são inevitáveis. Quem cuida desse dinheiro?

A série reúne diversas informações sobre acontecimentos recentes e análises sobre esses temas que falam mais sobre politicagem e interesses duvidosos do que sobre paixão pelo clube ou esporte.

Aqui no Pra Escrever, a partir dessa semana!


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blog Pra Escrever apresenta uma série de postagens sobre as negociatas e politicagens do futebol brasileiro, reunindo publicações e críticas recentes da imprensa.

1) O jogo em que Ricardo Teixeira é o capitão.
2) Os contratos de transmissão no Brasil.
3) A história se repete. Chegou a hora de aprender com os hermanos.

19.10.11

#ClássicosEmSJ - Futebol e politicagem

Por melhor estruturada que seja e por mais audiência que tenha, a mídia esportiva brasileira gera mais conteúdo sobre politicagem do que sobre os esportes em si, especialmente o futebol.

Segundo esta matéria de O Dia que acabei de ler no NetVasco, o histórico estádio de São Januário continuará sendo preterido pelas forças de segurança pública do estado do Rio de Janeiro para a realização de  clássicos regionais, como o jogo contra o Botafogo pelo Campeonato Brasileiro que acontece daqui há quatro rodadas.

O Vasco, embora seja o único clube grande do Rio com estádio próprio é o que menos joga em casa. Eu, vascaíno, tenho o demérito de ter estádio. Os confrontos contra Botafogo, Flamengo e Fluminense, ainda que com mando de campo cruzmaltino, são obrigatoriamente realizados em estádios maiores e (supostamente) mais estruturados para um clássico.

São Januário tem capacidade para 19 mil presentes. A Vila Belmiro, estádio do Santos, tem capacidade para 15 mil e recebe clássicos contra o Corinthians e Palmeiras, por exemplo. Falta consenso entre as autoridades. 

A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, através do batalhão GEPE (Grupamento Especial de Policiamento nos Estádios), é quem desautoriza jogos no estádio do Vasco com a explicação de que São Januário não oferece segurança. Dúvida: se a PM é quem tem que garantir a segurança dos torcedores, não cabe ao Vasco a responsabilidade de provar que é possível. E mais: a realização de jogos no Engenhão ou no Maracanã não impediram a marcação de brigas entre torcidas em lugares distantes de onde o jogo seria realizado.

A entrevista do tenente-coronel Fiorentini é confusa. Ele tem pareceres relativos:

O acesso é complicado, a capacidade é pequena, e, se posso colocar um jogo com mais segurança no Engenhão, por que levá-lo para São Januário?

Honestamente não considero o acesso ao Engenhão mais fácil, tampouco seguro. Embora exista a estação de trem muito próximo ao estádio, não existem locais devidamente seguros para que as torcidas rivais possam se localizar sem encontrar-se. Além disso, mesmo sendo "contra-mão" São Januário e o seu entorno já fazem parte do cotidiano dos vascaínos que frequentam o estádio.

Outro argumento utilizado pelo tenente-coronel e que me reservo no direito de achar equivocado:

Um dos principais obstáculos é que no primeiro turno, quando o mando foi do Botafogo, o Vasco ficou com a metade da renda. Se o jogo fosse para São Januário, o Botafogo seria prejudicado porque só pode ter 10% de torcedores no estádio.

O (apenas) responsável pela segurança dos torcedores fazendo papel de cartola? O que este senhor tem de propriedade ou responsabilidade para falar sobre divisão de renda? Nada. E mais: que fique claro que a divisão igualitária da renda do jogo Botafogo x Vasco foi vantajosa para o time mandante, que tinha monstruosa inferioridade de torcedores em relação ao lado vascaíno, além de ser lógica e tradicional entre os clubes do Rio.

Por fim, ao comparar o caso da Vila e de São Januário, o responsável pelo GEPE fala que os jogos em Santos são autorizados por "questão de cultura". Ora, meu caro! Você não sabe que São Januário é um  dos estádios mais antigo desta cidade? Manter a "cultura" do santista jogar em casa, pode; a do vascaíno, não.

A autoridade do tenente-coronel Fiorentini é incontestável, mas quem gosta de futebol ou é vascaíno exige mais transparência e coerência em decisões como essa.

O Vasco, atualmente, é vice-líder do Brasileirão com a mesma pontuação do Corinthians, primeiro colocado. Temos chances reais de sermos campeões, assim como o Botafogo. Isso é suficiente para fazermos justa a realização, de fato, de um campeonato de ida e volta. 

#ClássicosEmSãoJanuário
#ClássicosEmSJ 

Em tempo: este simplório blog está preparando, para muito em breve, uma série de postagens em que vamos pensar e discutir o futebol brasileiro em um dos seus temas mais polêmicos: a transmissões dos jogos pela televisão. Mais politicagem, impossível. 
  

16.10.11

O futuro equivocado por dentro do "New York Times"


Este blogueiro que vos escreve gosta muito de cinema, embora entenda pouco (ou quase nada). Em tempos de Festival do Rio, montei uma lista de filmes que me interessavam sem atentar para diretores ou elenco, ficando focado apenas pela sinopse divulgada.

Dessa forma, escolhi com certo entusiasmo o filme "Primeira página: por dentro do New York Times", do diretor Andrew Rossi. O trabalho começa evidenciando os problemas que a publicação vem enfrentando nos últimos anos, sobretudo com perdas significativas em publicidade (valores pelo menos 30% menores de um ano para outro) e o crescimento das novas mídias e daquelas consideradas não-tradicionais.

Entretanto, o que se vê por dentro da redação do mais importante jornal dos Estados Unidos são demonstrações desnecessárias de poder e de ego de um outro diretor (inclusive em encontros promovidos para discutir o futuro do jornalismo em tempos de Internet) e demissões promovidas pela direção da publicação, justificada por questões financeiras - "Uma ação do Times custa menos do que uma edição de domingo", diz um dos entrevistados.

O filme nada mais é do que uma tentativa de fazer os espectadores acreditarem que mesmo em um novo mundo (em que a Internet e as técnicas de comunicação são fundamentais) a influência do jornal permanecerá. Há controvérsias.

A questão que talvez nem todos percebam (principalmente os ainda entusiastas desse jeito tradicional de produzir notícias, inclusive jornalistas) é que a própria fita dá os sinais das mudanças que vivem o jornal: mostra que, em 2001, ao publicar matérias sobre os armamentos nucleares no Iraque isso significou verdade absoluta na opinião pública estadunidense. O contraponto: sete anos depois, enquanto uma rede televisiva afirmava que a ocupação dos EUA no Afeganistão havia chegado ao fim, a redação do Times se encontrava perdida sobre como tratar um assunto que eles não dominavam.

Uma dos momentos finais do filme é um dos piores: "a notícia não vai morrer", diz um dos participantes do documentário ao garantir o futuro do The New York Times. A notícia vai continuar existindo, sim - com ou sem grandes jornais. Aliás, penso eu, quanto menos concentrada for a produção de notícia - leia-se: sem grandes corporações da informação - mais diversificadas serão as notícias que teremos sobre o mundo.

Já escrevemos (e pode ser lido aqui) que quanto menos dependermos dos grandes jornais e agências de informação, mais protagonistas existirão para que a notícia, uma interpretação dos fatos, possam surgir.

Quando morrem ou agonizam os grandes órgãos da imprensa mundial, a notícia vive.      

15.10.11

Questões locais, globais e sobre a Copa. E a soberania nacional?


Vivemos em um mundo globalizado (ou mundializado, como preferem os franceses).

Na visão fantasiosa que os poderosos querem impor, as tecnologias apresentam oportunidades, um mundo mais integrado e com distâncias espaciais e temporais reduzidas.

Um dos símbolos desse mundo globalizado são as empresas transnacionais, poderosas em várias áreas de atuação: do entretenimento ao mercado financeiro; da indústria alimentícia à automobilística. Consumir produtos dessas marcas, para muitos, é associar-se a elas e incluir-se na tal globalização.

A atuação imperialista e tirânica dessas corporações causa inevitáveis problemas por onde elas passam: desemprego, desrespeito aos direitos trabalhistas e ao meio ambiente, perda da identidade etc. Tudo isso justificado pelo lucro e pelas supostas "oportunidades de ouro" que as empresas oferecem aos estados nacionais, uma vez que recusar ou dificultar a atuação das empresas causa sua fuga. Há outros espaços em que elas podem se instalar sem que seja incomodada.

Outra característica da globalização é a homogeneidade imposta aos nossos costumes e consumo. Muitas vezes sem perceber, acordamos pela manhã e usamos produtos de higiene da estadunidense P&G, fazemos as refeições usando a suíça Nestlé, vestimos e calçamos a alemã Adidas, nos divertimos na noite bebendo cervejas da belga-brasileira InBev e ouvindo músicas do catálogo japonês da Sony. Por mais diversificado e cheio de opções que possa parecer, muito de nossas vidas é controlado por poucas corporações.

O processo com essas características se dá há décadas, mas começa a ganhar outras formas. Resistências têm explodido em todo o planeta há algum tempo. Um poder cada vez menos do Estado e cada vez maior das transnacionais é motivo de revolta, seja na América Latina ou na Europa - as desigualdades e injustiças nos unem, na medida do possível.

A FIFA, uma das mais influentes transnacionais conforme disse Juca Kfouri em artigo para a revista Interesse Nacional que está em seu blog e pode ser lido aqui, não age de maneira diferente. Usando e abusando da emoção que o futebol causa em todo o planeta (o marketing é ferramenta de ouro para qualquer corporação de grande porte no mundo) a entidade máxima do esporte impõe aos países-sede de seus eventos contratos, legislações e estilos de consumo. É o padrão-FIFA, caríssimo.

Para a Copa de 2006, na Alemanha, a força da Anheuser-Busch legitimada pelo contrato milionário com a FIFA não foi suficiente para impor que alemães e turistas consumissem no país da cerveja (a até então estadunidense) Budweiser. Por menos importantes que fossem nas grandes negociações globais, essas marcas locais conseguiram estabelecer-se com força e isso significa muito mais do que ter uma marca ou outra.

A força das ruas e do bom-senso mostra que por mais globalizado que esteja o mundo, ainda existe espaço para relações econômicas e de poder mais justas. Infelizmente, esse não é um caminho que estamos trilhando por aqui com relação à mesma FIFA.

Para a Copa de 2014 teríamos que deixar de lado legislações sobre meia-entrada para estudantes e idosos e sobre a proibição da venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios. Ainda que não faça sentido pelo clima que temos, os estádios brasileiros terão que ser cobertos (o que significa milhões de reais a mais nos orçamentos).

A soberania de um país cada vez mais importante no cenário internacional fica em xeque pelos desmandos dos senhores Teixeira e Blatter, sempre presentes nos noticiários internacionais por suspeitas e provas de sujeiras das mais diversas.

Esse tipo de análise não aparece na grande mídia brasileira, talvez pouco preocupada com a soberania do nosso país. Mais do que ficarmos orgulhosos por termos um evento desse porte em solo brasileiro, precisamos avaliar o que isso significa e qual preço pagamos.          

28.9.11

Na Copa, quem se interessa por uma imprensa livre?


O blog do Paulo Henrique Amorim, Conversa Afiada, trouxe uma boa notícia agora há pouco: "Dilma barra Teixeira em reunião com a FIFA". Essa é mais uma prova que desmonta a tese de presidente-ilha que o PiG* quer associar à Presidenta Dilma Rousseff. Este e muitos outros blogs já sabem que a Presidenta não é um fantoche ou um poste - como o presidente do IBOPE a classificou às vésperas da campanha eleitoral de 2010. 

Só aqui no Brasil o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, é respeitado. Em qualquer lugar do mundo onde a imprensa é verdadeiramente livre (sem rabo preso), ela atua fazendo investigações, indagando e buscando a verdade sobre o enriquecimento do "dono do futebol brasileiro", suas politicagens na FIFA e desmandos na Confederação Brasileira de Futebol. 

Por aqui, a maior emissora de televisão do país já é conhecida por noticiar investigações e fazer denúncias sobre atitudes de Ricardo Teixeira ou escondê-las quando lhe convém.  

A Copa 
Tem sido cada vez mais frequentes as tentativas de convencer a população brasileira de que a Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014 será vergonha nacional. Nada vai funcionar: não teremos estádios, os aeroportos entrarão em colapso,  seleções ficarão presas no trânsito das grandes cidades... Vai faltar bola e apito, como diz Paulo Henrique Amorim. 


As tentativas de instabilidade nas discussões sobre a Copa são muito comuns no meio futebolístico: "plantar" crises em um time e divulgar desentendimentos fazem parte das estratégias para os times adversários vencerem os favoritos.

Que lugar o PiG ocupa: o do favorito ou de quem planta crises?

*O PiG (Partido da imprensa Golpista) é a denominação para toda a grande mídia brasileira, mais preocupada com o poder do que com a informação. A sigla foi criada e difundida pelo Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada.

24.9.11

Cultura e tecnologia

O protagonismo que a tecnologia possibilita aos produtores de cultura em todo o mundo modifica o mundo em vivemos, em uma velocidade cada vez maior. Tempo e espaço têm novas relações graças aos desenvolvimentos tecnológico. 

Saímos do estágio em que o fazer sucesso dependia de aparições em programas de TV populares para outra visão do que é sucesso. Ainda engatinhando, o surgimento de artistas via mídias alternativas já é realidade. 

Hoje, sabemos, o consumo de música mudou completamente. Clássicos ou lançamentos estão no You Tube e cada um pode montar o set list que quiser, a qualquer momento. Esperar o final de tarde para ouvir sua música preferida na lista das mais tocadas é coisa do passado.   

Se o consumo de música (e cultura em geral) mudou com o uso e apropriação das novas tecnologias, a mudança no mercado é inevitável. Conforme Ronaldo Lemos disse no seu "Mod MTV", já não dá mais para desprezar os milhões de pages views que alguns clipes/artistas têm nas páginas de vídeos.

A estrutura mercadológica baseada nos grandes investimentos com enormes retornos de bilheteria e vendas graças ao consumo de massa continuará existindo, com transformações inevitáveis. Entretanto, as grandes corporações do cinema, da música e da informação precisarão coexistir com esse jeito novo de produzir e consumir cultura.

E o Brasil? 
Existem vários aspectos a serem destacados nessa onda de novidades e o aumento da chamada classe média no Brasil e a chegada ao mercado de consumo de milhões de famílias é um deles. As empresas de tecnologia e telecomunicações sabem que precisam se adaptar aos novos tempos. Ou perdem mercado.

Hoje a produção da notícia tende à descentralização. Partindo do ponto de que a notícia é a interpretação do fato, como diz Milton Santos, podem coexistir diversas notícias sobre um mesmo fato. O pensamento único, padronizado e repetitivo é desconstruído justamente por aquilo que o sustentou: as tecnologias. Sozinhas nada produzem, mas bem distribuídas promovem mudanças profundas.

O papel de Gilberto Gil como ministro da Cultura nos mandatos do Presidente Lula foi determinante, já que trouxe para a instituição (com certo pioneirismo global) esse novo olhar sob o produzir e consumir cultura. Os ativistas culturais temem que todos os avanços alcançados até agora possam se perder com o caminho escolhido para o ministério pela Presidenta Dilma, fato que merece total atenção da sociedade civil e dos agentes mobilizadores da grande rede.

Sem voltar atrás
Talvez ainda seja cedo para compreendermos onde iremos chegar com todas essas transformações, embora pareça claro que retrocessos são inviáveis. O caminho foi traçado e a tendência é de mais ganhos coletivos nos âmbitos da cultura e justiça social.

Ao propiciar o protagonismo, todas essas transformações (que partem de vários lugares, intensões e iniciativas) legitimam a liberdade

Segue abaixo o excelente programa "Mod MTV" com o tema periferias. 

22.9.11

O crime compensa pelo atingido? Para a Veja, sim.

O ex-ministro José Dirceu teve seu mandato de deputado federal e parte de seus direitos políticos cassados em função do mensalão, que ainda está por provar-se (como diz Mino Carta a Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada).

Esse ingrediente foi o bastante para aqueles que mandam na redação de Veja terem autorizado e, depois, justificado os métodos utilizados para realizar a reportagem de capa da edição em que Dirceu foi classificado como "o poderoso chefão" do governo.


Segundo apuração feita pelo repórter Gustavo Ribeiro, Zé tem tanto poder e influência no governo Dilma Rousseff que recebia em seu apartamento no Nahoum Hotel, em Brasília, atuais ministros, por exemplo. Na  reportagem completa publicada há cerca de um mês, Veja diz provar a denúncia com imagens do circuito interno de TV hotel.



O texto, claro, não considera que mesmo tendo sido cassado, José Dirceu continua sendo um cidadão com o direito de receber e conversar com amigos e articular politicamente, já que faz parte da direção do Partido dos Trabalhadores, uma vez que a decisão sobre o mensalão ainda não foi dada pela Justiça brasileira.


Os fins justificam os meios?


Até aqui, essa seria apenas mais um caso de mau-jornalismo praticado pela revista Veja. Porém, há detalhes que não foram publicados ou discutidos com a opinião pública com devida importância.


O repórter Gustavo Ribeiro hospedou-se no mesmo andar do hotel em que José Dirceu tem uma suíte alugada há meses. Para invadir o quarto do investigado tentou ludibriar a camareira que fazia seu serviço pelo corredor, dizendo que havia perdido sua chave e solicitando que a porta do seu quarto (na verdade quarto de José Dirceu)  fosse aberta. A funcionária, atenta e coerente, negou o pedido e comunicou o pedido à gerência do Nahoum. O repórter e o fotógrafo, que tentaram enganar os funcionários do hotel como crianças querem enganar seus pais, fugiram sem fechar a conta do quarto (detalhe: conta aberta com nomes falsos).


A polícia foi acionada, um boletim de ocorrência foi aberto pelo hotel e conclusões da investigação foram divulgadas por José Dirceu em seu blog:


"Foi concluída a investigação policial sobre a tentativa de invasão do apartamento que ocupo no Nahoum Hotel, em Brasília, ao final de agosto, pelo repórter Gustavo Ribeiro, da revista Veja. O jornalista prestou depoimento acompanhado de três advogados e admitiu que, de fato, tentou violar o recinto. A apuração policial também constatou que as imagens do circuito interno do hotel apresentam divergências com as publicadas na matéria de Veja. Os horários supostamente apurados pela revista simplesmente não batem com os registrados pelo hotel. A investigação – que colheu vários depoimentos e também se apoiou em imagens do circuito interno - será encaminhada ao Juizado Especial Criminal de Brasília."


Não há dúvidas de que os métodos utilizados por Veja não compensariam, caso jornalismo de verdade fosse praticado. Seria injusto usar e abusar de tais métodos para ter qualquer furo jornalístico. A matéria foi publicada, mesmo com a investigação policial acontecendo em Brasília. E, ao que parece, nenhuma nota que explique ou reconheça os erros foi publicada.


A perseguição do qual foi vítima o ex-ministro José Dirceu serve de alerta para a sociedade brasileira entender, de uma vez por todas, que a democracia nos meios de comunicação que aí está beneficia poucos e que um novo marco regulatório dos meios de comunicação do Brasil é pura justiça.



21.9.11

Milton Santos e a "violência da informação"


Milton Santos foi um daqueles brasileiros que todos nós deveríamos nos orgulhar. Negro e nordestino, tornou-se um dos grandes intelectuais deste país e revolucionou o pensamento geográfico mundial. 

Bacharel em Direito e Doutor em Geografia, o professor Milton Santos faleceu há dez anos. Sua última publicação foi "Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal" (Editora Record) e trouxe a esse mero professor escolar de Geografia que vos escreve uma grata surpresa. Aquele que eu consideraria um tema atual, aparece no livro de Milton com enorme propriedade crítica.

Se o professor estivesse vivo, talvez seria um dos maiores entusiastas de campanhas que pedem a democratização da internet e um novo marco regulatório dos meios de comunicação no Brasil. A urgente necessidade de tornarmos protagonistas aqueles que até então são meros receptores, leitores, ouvintes ou telespectadores, e a consciência de que informação atualmente é negócio, com interesses e visões de lucro está em sua obra.

"O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde. (...) nas condições atuais de vida econômica e social, a informação constitui um dado essencial e imprescindível. Mas na medida em que chega às pessoas, como também às empresas e instituições hegemonizadoras, é, já, o resultado de uma manipulação, tal informação se apresenta como ideologia."

Sábias e lúcidas palavras. Uma visão que ainda é de enorme dificuldade para ser compreendida, já que muitas vezes tudo acaba sendo reduzido a "discurso de esquerdista" ou "de revolucionário". 

Para as grandes corporações da comunicação, não há espaço para ideias e críticas que reprimam e condenem suas atuações. Os interesses delas não é o mesmo interesse da maioria da população mundial; os que lutam por um mundo melhor e mais justo não tem os mesmo objetivos que elas.

Por fim, outra parte do texto do professor Milton Santos:

"As mídias nacionais se globalizam, não apenas pela chatice e mesmice das fotografias e dos títulos, mas pelos protagonistas mais presentes. Falsificam-se os eventos, já que não é propriamente o fato o que a mídia nos dá, mas uma interpretação, isto é, a notícia. (...) O evento já é entregue maquiado ao leitor, ao ouvinte, ao telespectador, e é também por isso que se produzem no mundo de hoje, simultaneamente, fábulas e mitos."

Para saber mais sobre a obra e a vida do professor Milton Santos, acesse sua página oficial.



O Brasil bem representado na ONU



Pude acompanhar com imenso orgulho a primeira participação da Presidenta Dilma Rousseff em uma Assembleia Geral da ONU, a 66ª. Dilma foi direta em todos os assuntos tratados, evidenciando a crescente liderança regional e global do Brasil e o novo enfoque que o mundo precisa ter sob si mesmo.

Dilma, por exemplo, conseguiu resumir uma visão sensata sobre as insurgências populares árabes e a participação das grandes potências políticas e econômicas nesses processos:

"É preciso que as nações encontrem uma forma legítima e eficaz de ajudar as sociedades que clamam por reforma, sem retirar de seus cidadãos a condução do processo. Repudiamos com veemência as repressões brutais que vitimam populações civis. Estamos convencidos de que, para a comunidade internacional, o recurso à força deve ser sempre a última alternativa. A busca da paz e da segurança no mundo não pode limitar-se a intervenções em situações extremas."

Essa parte do discurso deixa claro que a independência dos países e seus cidadãos deve estar à frente de interesses econômicos e políticos pontuais de uma ou outra potência. Usar tais movimentos para alcançar determinados objetivos (que talvez não sejam os mesmo daqueles que se revoltam) é leviano, injusto e incoerente com os novos tempos da política mundial.

Dilma foi direta também ao tratar do tema Palestina. Primeiro lamentou não poder saudar a chegada do país ao parlamento; depois condicionou a tão desejada paz na região ao reconhecimento do estado palestino: "Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender aos legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política em seu entorno regional."

A crise econômica inciou a participação da Presidenta. Dilma praticamente conclamou os governantes do mundo a unirem-se em torno de uma iniciativa legítima que possibilite a solução da crise: "Mais que nunca, o destino do mundo está nas mãos de todos os seus governantes, sem exceção. Ou nos unimos todos e saímos, juntos, vencedores ou sairemos todos derrotados".

Apesar do tom diplomático e subjetivo dessa parte do pronunciamento, a Presidenta cavou espaço para ser mais assertiva e mandar o recado àqueles que precisam ouvi-lo: a regulação do sistema financeiro, qualificado por Dilma como "fonte inesgotável de instabilidade".

Essa temática é de imensa importância e também bastante atual, uma vez que diversos países da Europa parecem ter chegado à conclusão de que impostos sobre as movimentações e ganhos especulativos são apenas uma parte daquilo que pode dar fim à crise e a vulnerabilidade dos países.

Soma-se a esse alerta outra parte importante do discurso: "Essa crise é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países". Esse protagonismo que o Brasil anseia e ao mesmo tempo tem colocado nos últimos anos, sabe-se, não nasce com a eleição do Presidente Lula em 2002. Mas há de se reconhecer que se o caminho escolhido pelos brasileiros tivesse sido outro não teríamos condições de aproveitar tais mudanças na geopolítica mundial.

Sobre o tão desejado assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (uma luta iniciada com o Presidente Lula e o então Ministro da Relações Exteriores Celso Amorim) também esteve presente na fala da Presidenta, que destacou a necessidade de tal Conselho refletir a realidade do nosso tempo (mais plural e menos polarizado), garantindo que o Brasil está pronto para assumir as responsabilidades como membro-permanente.

Por fim, Dilma (talvez sem querer) mandou um recado ao PiG* e àqueles que querem tornar vergonhosa a história de lutas da Presidenta:

- Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade.

O discurso completo da Presidenta Dilma Rousseff você pode ler aqui ou assistir em vídeo abaixo.



*O PiG (Partido da imprensa Golpista) é a denominação para toda a grande mídia brasileira, mais preocupada com o poder do que com a informação. A sigla foi criada e difundida pelo Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada.

20.9.11

Herméticos pela rede

Este simplório blog já publicou aqui sobre as ideias, a força e importância da produção cultural com financiamento colaborativo. Tema em que a internet ganha destaque mais uma vez e sua utilização é determinante.

Tentamos falar com a produção do site/movimento Queremos, mas infelizmente não tivemos resposta. Independente disso, vale destacar a nova ação do site: Os Paralamas do Sucesso tocando o disco "Selvagem", um clássico do rock brasileiro que completa 25 anos de lançamento.

Essa novidade abre espaço para um evento muito esperado: Jorge Ben Jor tocando ao vivo, no violão, todo o disco "A tábua de esmeralda". O disco de 1972 foi revolucionário em sua temática e produção. E foi o último em que Jorge Ben usou seu jeito (também) revolucionário de tocar violão.



Ainda não sabemos a data, mas o show acontece via coletivo Queremos, no Circo Voador.